Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: David Brabham

Filho do tricampeão mundial Jack Brabham, era companheiro de equipe de Roland Ratzenberger na Simtek

DAVID BRABHAM, de Maidenhead, em depoimento a JULIANA TESSER
 
Obviamente, todos estão falando muito daquele fim de semana no momento. Encontrei Damon Hill dias atrás em Donington Park e nós estávamos falando disso. Nós dois sentimos a mesma coisa. Nós nos lembramos de certas coisas daquele fim de semana, mas não necessariamente lembramos tudo. Estávamos em estado de choque, muitas emoções e coisas com as quais não estamos acostumados. Nunca tinha perdido um companheiro de equipe: as coisas não ficam claras na sua mente, você não sabe o que fazer e no que pensar. Foi um daqueles fins de semana que não se consegue esquecer por ter sido tão ruim. Minha esposa teve que me contar o que tinha acontecido: meu cérebro não absorveu.

Não diria que eu e Roland corremos muito juntos antes da F1. Quando ele se tornou meu companheiro de equipe, passei algum tempo com ele em Mônaco treinando e criando uma relação. Fiz alguns GPs antes de Ímola, e ele parecia ser um ótimo cara, muito comprometido com as corridas. Foi uma pena ver alguém que acabou de chegar na F1 ser tirado dela. Trágico.

Eu ainda estava na pista quando o acidente aconteceu, mas eu me lembro de passar pelo carro e olhar para ver se Roland estava bem e, do que eu podia ver, a minha reação imediata foi: “Você morreu...”. Mas eu não sabia e a mente prega peças. Voltei para os boxes e a notícia veio. Foi um choque, apesar de eu ter meio que sentido que ele tinha morrido quando eu o vi na pista.

Havia uma grande nuvem negra pairando sobre o time. Na noite de sábado, me perguntaram se eu queria correr ou não. Era uma escolha minha, e na hora eu não fazia ideia. Eu não sabia o que deveríamos fazer. Então eu disse: “Vamos fazer o warm up e ver como eu me sinto”. Por qualquer razão, fomos bem rápidos com a Simtek. Acho que a equipe deixou o tanque vazio ou algo assim, mas fomos rápidos. Conforme voltei para os boxes, parecia que aquela nuvem negra tinha se dissipado um pouco. Todos estavam extremamente tristes – eles também nunca tinham passado por uma situação trágica assim, ter perdido alguém dessa forma. Era, ainda é, bem raro alguém morrer em um carro de corrida, mas eu decidi correr aquele dia pelo time para ajudar a todos se superarem.

E na corrida, quando eu passei pelo acidente na Tamburello, eu não vi o quão sério era, honestamente. Tudo que vi foi que havia outro carro; pensei que fosse uma Tyrrell, eu não achava que era a Williams. Pode ser porque quando eu estava passando, tinham carros ao meu redor e eu não consegui ver direito, mas, de novo, eu não estava realmente olhando. Eu apenas sabia que tinha um carro na lateral da pista, mas não que era Ayrton até todos termos parado na reta de chegada. Aí alguém disse que era Senna.

Também não diria que conhecia bem Senna. Quer dizer, eu o encontrei algumas vezes, mas eu e ele estávamos em lugares diferentes, então nós realmente não nos misturávamos. Ele sentou na minha frente no briefing dos pilotos naquela manhã antes dele morrer, e foi meio esquisito e estranho. Normalmente, Ayrton sempre falava bastante sobre alguma coisa, sempre tinha algo a dizer. Mas naquele briefing, tudo que eu lembro é que muitos pilotos passavam por ele e o tocavam – o que era muito raro, normalmente isso não acontecia. Não sei se foi porque Ayrton estava muito triste com o acidente do Roland. Eu ouvi muitas histórias de que, de alguma forma, ele pensou que algo ruim fosse acontecer naquele fim de semana, que poderia seria com ele, e foi Roland, e também ouvi todo tipo de história – o quão verdadeiras elas são, não faço ideia. Ele estava muito abalado, muito distante naquele dia. No meu entendimento, não era o Ayrton que as pessoas normalmente teriam visto naquele fim de semana.

Foi um fim de semana muito estranho. Obviamente, o acidente do Rubens meio que começou as coisas, depois tivemos o acidente de Roland, o acidente da largada, o acidente do Ayrton, uma roda que se soltou no pit-stop e acertou um mecânico... Nós nunca vimos um fim de semana como aquele. Eu nunca tinha visto aquilo na F1 e, provavelmente, a maioria da pessoas também. Obviamente, na era do meu pai, a morte era uma coisa muito mais comum, mas, para nós, no início dos anos 90, ainda era muito raro ter alguém morrendo em um carro de corrida.

Eu não me arrependo de ter corrido. Acho que foi a coisa certa a fazer naquelas circunstâncias, e foi isso. Eu não poderia correr por mim. Eu tinha de correr por minha equipe.

Fui ao funeral de Roland. Eu conhecia Roland melhor do que conhecia Ayrton. Ele era meu companheiro de equipe, então, para mim, era o melhor lugar para estar.

Acho que qualquer experiência como a daquele fim de semana contribui para você ser a pessoa que é hoje. Eu sempre acreditei que tem coisas boas que resultam de coisas ruins, e muitas coisas boas aconteceram depois daqueles acidentes em termos de segurança dos carros, para os pilotos, nas pistas. São as consequências da infelicidade de termos perdido dois pilotos: um incrivelmente especial para a F1 e outro que estava apenas começando a carreira. Se olhar adiante, os pilotos das gerações seguintes estão em um ambiente mais seguro por causa daquilo.

E o que surge na minha mente é a mudança de vida que acabou causando. Acho que foi uma experiência muito dramática que provavelmente muda quem você é e a forma como você olha para as coisas. Naquela época eu era um piloto, e eu ainda sou, mas aqueles eventos mudam você”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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