Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Éder Luiz

Locutor esportivo, transmitiu a corrida para o Brasil pela Rádio Bandeirantes

ÉDER LUIZ, de São Paulo, em depoimento a RENAN DO COUTO
 
Naquela corrida, eu estava com uma gripe muito forte, e a Bandeirantes acabou optando que eu fizesse do estúdio. Eu fazia todas as corridas ‘in loco’, mas nessa corrida eu não estava. Mas para mim foi como foi para qualquer brasileiro: um negócio horrível. Eu fiquei muito mal com aquilo. Nos 14 anos em que eu fiz F1, tive uma grande convivência com o Ayrton, que era um cara extremamente eficiente no que fazia e uma pessoa muito bacana. Essa convivência com ele, as coisas que a gente pôde ver ao longo da carreira, fatos que foram marcantes... A gente acompanhou muito de perto. Foi como perder alguma pessoa da família.

Eu estava no estúdio transmitindo a corrida e fiquei perplexo. Quando eu vi a cena, foi chocante. A gente ficava na esperança de que tivesse suportado, mas a gente sabia o nível de gravidade. Naquela curva ali, o Nelson já tinha batido, o Berger, mas não de uma forma frontal. Sabia que a desaceleração ia causar danos. Ficamos cerca de dez, 15, 20 minutos na esperança de que tivesse um caminho de salvação para ele. Mas quando a gente pôde rever a cena, já ficou a certeza de que lamentavelmente seria fatal.

Nós tínhamos um repórter no local, o Cândido Garcia. Eu sempre viajava com ele, naquela semana acabei ficando. A gente foi tomado por uma expectativa, uma certa esperança de que talvez ele pudesse ser reanimado. Quando ele foi para o hospital, já começou aquela bateria de ligações para a Itália para tentar alguma informação mais contundente. O Cândido deixou a pista e eu tive de terminar a transmissão. E ao longo da transmissão, o Cândido foi entrando do hospital para trazer informações sobre o estado de saúde dele. Mas foram momentos absolutamente horríveis. Eu diria que, em termos de transmissão, foi a mais difícil que eu fiz. Não tinha vontade mais de falar nada. Queria saber se tinha alguma possibilidade, alguma chance de ele ser reanimado e dar essa notícia. E quando a gente teve que dar a notícia de que tinha sido confirmada a morte dele, foi triste demais.

Aquilo me abalou por muito tempo. Foi difícil voltar a transmitir uma corrida de F1. As corridas seguintes foram horríveis, pois havia um clima de consternação em todos os autódromos. A afinidade do Ayrton com o torcedor, com o aficionado por F1, era fortíssima.

Eu me lembro de cenas que vi, de dois momentos que foram muito marcantes para mim. Um deles foi na decisão de 1988, eu estava em Suzuka, e os japoneses tinham uma verdadeira veneração pelo Ayrton. Lembro de um japonês aos prantos com a bandeira brasileira na saída do autódromo, gritando ‘Senna, Senna’, chorando como se fosse um brasileiro. Parecia que o imaginavam como um super-herói. E outra cena que me chamou muito a atenção foi uma disputa dele com o Alain Prost pela pole-position para o GP de Mônaco. Ficou aquela alternância na primeira colocação entre ele e o Prost, e na última saída, ninguém esperava que ele conseguisse fazer um tempo que tirasse o Prost da pole-position. E ele conseguiu. Em Mônaco, 99,9% da torcida era francesa, e eu estava na cabine, que lá fica praticamente junto dos torcedores naquela curva reta de Mônaco, e os caras numa torcida maluca pelo Prost. De repente, o Ayrton consegue recuperar a pole, passa e os franceses aplaudem de pé. Voltas mágicas que ele conseguia dar.

Essas duas imagens vão ficar marcadas pela vida inteira. São algumas cenas mais bonitas do esporte que eu vi na minha carreira. Que, às vezes, não aconteciam dentro da prova, mas mostrava como ele era querido e amado não só pelos brasileiros, mas por todos aqueles que gostam de F1.

E quando aconteceu o acidente em questão, para mim, desabou. Foi um negócio muito triste”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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