Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Flavio Gomes

Então editor da Folha de S. Paulo, comentou a corrida ao vivo pela Rádio Jovem Pan

FLAVIO GOMES, de São Paulo, em depoimento a RENAN DO COUTO
 
Foi um fim de semana normal até a quinta-feira. Não era uma temporada normal. Já tinham acontecido alguns acidentes, do Alesi, por exemplo, mas principalmente, não era normal porque o Senna não estava muito normal. O cara fez um puta esforço para ir para a Williams. No primeiro teste, saiu e falou “bem na minha vez cagaram no carro”, que foi uma coisa muito marcante que só eu ouvi – eu estava dentro do box da Williams lá em Portugal. Na primeira corrida, o cara roda; na segunda, bate; na terceira, ele, que já era um cara tenso normalmente, chegou ainda mais. Mas era ótimo do ponto de vista jornalístico: a crise da Williams, o grande ídolo do país em dificuldade, o Schumacher aparecendo. Era um prato cheio.

Só que tudo isso que era engraçadinho deixou de ter graça quando o Rubinho bateu. Foi muito forte, muito chocante para todo mundo que viu. Era um moleque.

No sábado, perdeu a graça totalmente.

A maior parte de quem estava ali – dos pilotos, a maioria, e boa parte de quem cobria – nunca tinha visto ninguém morrer em um fim de semana de corrida em pista. Nem eu. Eram 12 anos de uma sensação falsa de segurança. Os caras capotavam e saíam tirando pó do macacão, mas era pura sorte. Deu pra ver que era pura sorte, pois dois acidentes muito parecidos resultaram em morte.

O ambiente era muito tenso, carregado. O Rubinho no hospital, aí o cara chega à tarde meio que para se despedir, está com a boca toda inchada, braço enfaixado – e o cara tinha acabado de morrer. O início do domingo era bem tenso, bem diferente para todo mundo. Ninguém tinha convivido com uma morte tão de perto, e mesmo os que tinham convivido fazia um tempo que não conviviam.

Do meu ponto de vista pessoal, o trabalho esteve à frente de tudo o tempo inteiro. Você tem a dimensão do que está acontecendo, por mais jovem que você seja. Eu tinha quase 30 anos, já trabalhava com aquilo fazia bastante tempo. Você tem a dimensão. O maior ídolo do país morreu daquele jeito. Triste pra caramba, e você tem a total percepção de que aquela é a cobertura mais importante que você vai fazer na tua vida. Não tem nada parecido no esporte. Cobrir uma guerra, uma revolução? No esporte, eu sabia que dificilmente iria me deparar com algo parecido no futuro.

E da escola de jornalismo que eu vim, da ‘Folha’, tinha sempre que fazer o melhor de todos, ser o melhor – e era mesmo –, o jornal mais vendido do país, aquela coisa. Foi muito tenso para trabalhar porque a gente não tinha a informação que precisava ter: o que aconteceu para ele sofrer o acidente e como ele morreu. Isso, claro, a gente ficou sabendo depois que foi um ferimento na cabeça. Só. O que aconteceu no carro ninguém sabe até hoje – tem várias hipóteses. E, no dia, menos ainda. Não tinha tido perícia de nada, comunicado de equipe, FIA falando, não tinha nada. Tinha dois fatos: o cara bateu e o cara morreu. O resto era especulação e dedução. Teorias: o que poderia ter levado o carro a bater daquele jeito.

A morte do cara era um fato monstruoso, mas, naquele domingo, você podia resumir toda a cobertura a uma frase: Ayrton Senna bateu o carro na Tamburello na sétima volta a 220 km/h – também não tinha essa informação - e morreu. Era só isso que dava para escrever, a rigor. Aí você tinha os detalhes, por que morreu, como morreu? O helicóptero o levou para o hospital, a hora da morte... O essencial mesmo, ninguém tinha. Por esse lado, foi muito tenso trabalhar porque você não conseguia levar para o público nada diferente do que ele tinha visto na televisão. Tem a ambientação, o hospital, as descrições... A perfumaria você tinha. Nós que não fomos não perdemos nada, absolutamente nada. A gente não tinha que fazer nada ao vivo, escrever para o jornal. No autódromo, a gente até tinha bastante informação. Não sei se eu faria muito diferente de não ter ido para o hospital na hora. Cheguei logo depois do cara morrer.

Do ponto de vista pessoal, que não tem tanta importância, acabou uma fase profissional da vida de todo mundo. Acabou a era do Ayrton Senna. Ficou muito claro que ali começava uma nova era da F1 em que segurança seria prioridade. Um negócio que havia sido negligenciado por alguns anos, e não porque não se preocupavam. A F1 sempre se preocupou com segurança, principalmente nos anos 80, com muitos acidentes, batidas fatais, os carros ficando muito rápidos. Era porque ninguém morria. A hora que parou de morrer, existiu, como eu falei, uma falsa sensação de segurança. Teve acidentes feios. O Donnelly, o Warwick em Monza, o Gugelmin em Paul Ricard – os que eu lembro ter visto. E os caras pegavam o outro carro e iam para a corrida. Tinha-se a sensação de que os carros eram seguros, mas eles eram relativamente seguros. Existiam muitas falhas de segurança, muitos buracos que ninguém nunca tinha pensado, e as pistas. A imensa maioria dos autódromos era muito velhos, antigos. O calendário era basicamente o mesmo dos anos 60 e 70.

Houve uma revolução na F1, e muito rápida. Naquele ano ainda não, porque os carros eram muito seguros. Já no ano seguinte, o trabalho começou a render, tanto é que nunca mais aconteceu nada semelhante”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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