Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Geraldo Rodrigues

Empresário, gerenciava a carreira de Rubens Barrichello e estava em Ímola em 1994

GERALDO RODRIGUES, de Miami, em depoimento a EVELYN GUIMARÃES
 
Para mim e para o Rubens, foi um fim de semana bem difícil e complicado. Além de tudo, teve o acidente dele na sexta-feira, que serviu para deixar o fim de semana já um pouco tenso. O que eu vi e senti naquele fim de semana do Senna foi o seguinte: o Ayrton normalmente era um cara muito fechado em fim de semana de corrida – a gente, às vezes, até conseguia sair na quinta para jantar, mas depois, sexta, sábado e domingo, ele às vezes passava no paddock meio reto. Estava sempre muito focado no trabalho. Ele não era muito de conversar, mas sempre tinha uma fisionomia boa. E realmente naquele fim de semana ele não estava com uma cara muito legal.

Aí o Rubinho teve o acidente. No dia, eu estava na mureta acompanhando o treino. Ele fez uma primeira volta muito boa e, quando passou de novo no primeiro setor, o Gary Anderson falou no rádio que ele já estava 0s8 mais rápido. Então, eu fui para a beirada do muro para vê-lo fazer aquele miolinho da pista, que dava para ver dos boxes. E nisso teve o acidente, e eu vi de mais ou menos uma distância de 200 a 300 metros, o carro decolando. Tentei pular o muro e ir na direção do acidente, mas os comissários me seguraram e fiquei por ali. A ambulância chegou, o Dr. Sid Watkins começou a mexer com o Rubinho e, depois de uns 5 minutos, ele já fez um sinal de positivo para mim.

Estava ainda me acalmando quando a ambulância passou. No que estou voltando, já estava cheio de gente na porta do hospital da pista. O Ayrton veio dos boxes e me deixou entrar com ele pela porta de trás do hospital; do centro médico, na verdade. Tinha um murinho baixo, que a gente pulou, e logo vimos o Rubinho. Eles já tinham cortado o macacão dele, mas ele estava lúcido. O Ayrton, então, conversou com ele e tal, “fica tranquilo, está tudo bem”. Aí o Ayrton pegou no braço e disse: ‘Fica com ele agora, que ele vai precisar de você’. Logo em seguida, ele voltou para os boxes.

Passamos aquela noite no hospital e, no sábado de manhã, o Rubinho me falou: ‘Ah, vamos embora, eu não aguento mais ficar aqui’. Ele havia trincado um braço e quebrado um osso embaixo do nariz, acima da arcada dentária. Eu ainda disse que precisávamos esperar, ter alta, mas ele queria ir embora de qualquer jeito. E a gente foi. O nosso quarto era o penúltimo. Tinha um corredor enorme e, no fim, uma porta de emergência, que dava em uma escada que saía no estacionamento. Nós fomos por esse caminho. E mesmo com as mesmas roupas do dia anterior, voltamos para a pista.

Quando chegamos, ele quis ir lá falar com o Ayrton. Eu até tenho uma foto desse encontro e você pela minha cara que o negócio estava meio estranho. O Ayrton falava e você via que os olhos dele estavam cheios de lágrimas. O Rubinho estava um pouco assustado com a segurança. Nós ainda ficamos um pouco por ali e depois fomos para a cabine da TV Globo. Veio a classificação, e o acidente do Roland Ratzenberger... Voltou aquele clima barra pesada de novo. E após aquela batida, não falamos mais com o Ayrton.

Ayrton nunca pensou em não correr depois do acidente do Ratzenberger. A única vez que vi ele falar em não correr foi na época da McLaren, que ele fechava contrato com Ron Dennis a cada corrida. Ele amava o esporte, gostava de testar.

Resolvemos voltar para a Inglaterra, em Cambridge, onde o Rubinho morava – com os dois acidentes, não havia mais nada que fazer ali. Era a primeira vez que o Rubinho via uma corrida de casa depois de estar na F1. Iam fazer uma matéria com a gente. Aí logo na largada teve um acidente e, então, o do Ayrton. De algo legal, passou a ser uma história triste. Nós ficamos na expectativa até conseguir falar com o Jayme Brito, produtor da Globo, e ele nos informou sobre a morte cerebral. A reação de todos foi péssima. Na casa lá, ainda moravam o Ricardo Rosset, o Gualter Salles. Ninguém acreditava que ali pudesse ter acontecido. A última pessoa que pensaríamos que pudesse morrer dessa forma seria ele.

Eu conversei com muita gente logo depois. Em um primeiro momento, eu até pensei em voltar para Ímola, mas aí a Betise Assumpção, assessora do Ayrton, disse que o corpo seria levado para São Paulo. Decidimos voltar para o Brasil. O Rubinho ficou muito abatido mesmo. Ele era um cara muito dependente da família. Então, fiz questão de retornar com ele.

Ajudei no que pude com o funeral e a Betise em tudo que ela me pediu. De qualquer forma, quando você para e percebe que nunca mais vai ver o cara... O Ayrton era meu ídolo e, mesmo depois, trabalhando com isso e tendo uma certa convivência com ele, meu coração sempre batia forte quando chegava perto dele, conversava e tudo mais, e eu nunca me acostumei com isso. Foi algo muito difícil ter feito o outro GP, ter visto o carro da Williams sem o cara lá. Meus olhos se enchiam de lágrimas toda vez que olhava para o carro. Ele foi uma pessoa que me ajudou muito na minha carreira. Quando tinha alguma dúvida, ele pedia ao empresário dele para me ajudar. Ele também ajudou muito o Rubinho naquela época: posição de banco, mudança de acelerador e barra de suspensão... a gente esperava chegar bem fim de tarde para falar com ele. Foi muito difícil essa fase depois da morte dele. Não foi um GP, foram meses assim.

Dentro das minhas conclusões do que aconteceu ali, o maior culpado do acidente foi o próprio Ayrton. Ele quis fazer uma modificação no carro: por ser competitivo desse jeito, ele encheu o saco da equipe para fazer essa mudança – tudo que estou falando são coisas que ouvi; não são coisas oficiais, não ouvi da boca dele e nem estava presente. Pelo que falam, ele pediu uma modificação da barra de direção lá na pista e, segundo o que eu ouvi, eu sei que ele insistiu que os caras mudassem um negócio na barra de direção, que a equipe preferia fazer na fábrica. Acredito nisso. A solda no material da barra, que é de molibdênio, pode ser feita fora da fábrica, mas ela não é tão resistente. Esse é o meu feeling do que aconteceu. Acho que foi ali que quebrou. Aquela curva é uma curva de muito ‘grip’ na roda dianteira do carro. A barra rompeu devido ao esforço, tanto que o carro sai reto ali. Por isso que, até hoje, nunca se culpou ninguém pelo acidente. A equipe pode ter tido culpa pelo acidente? Até pode, mas só fez porque ele encheu naquela corrida para bater o Schumacher.

O que mais me marcou daquele fim de semana foi a conversa que tivemos naquele sábado antes da classificação. A forma como ele reagiu a tudo e a maneira como ficou ao ver o Rubinho foram absolutamente estranhas: emocionado”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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