Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Johnny Herbert

Vencedor de 3 GPs na F1, disputou o GP de San Marino de 1994 pela Lotus

JOHNNY HERBERT, de Interlagos, em depoimento a EVELYN GUIMARÃES
 
Antes mesmo de Ayrton Senna estrear na F1, todos nós já conhecíamos seu enorme talento. Já sabíamos disso desde a F3: ele tinha velocidade, arrojo e coragem, realmente possuía um talento genuíno. Eu acho que poucas pessoas conseguiam entendê-lo. Desde muito jovem, ele sempre foi um cara muito focado, profissional, atento a tudo. Respirava automobilismo, as corridas. Era impressionante. Tinha sempre tudo sobre controle, sabia tudo e sempre estava em busca de uma forma de melhorar. Não descansava. E nada era bom o suficiente.

Ele teve uma carreira excepcional. De muito sucesso. Era tremendamente rápido nos treinos classificatórios. E era um adversário dificílimo.

E pensando naquele fim de semana, foi totalmente surreal. Primeiro, teve aquele acidente horrível de Rubens Barrichello. No sábado, um acidente ainda pior, ainda mais forte com Roland Ratzenberger. Era inacreditável. Aconteceu tudo em questão de segundos. Na verdade, foi um fim de semana bastante confuso para todos: pilotos, mecânicos, engenheiros, chefes, promotores e fãs. Fiquei realmente muito chocado com tudo o que houve. Eu me lembro de ter ficado bastante assustado com o acidente de Rubens e completamente sem ação diante do que aconteceu com Roland, porque o conhecia e éramos amigos. No sábado ainda, eu procurei o Dr. Sid Watkins e conversei com ele um pouco sobre tudo. Sei que Ayrton fez o mesmo. A noite de sábado foi bastante confusa para todos. Ninguém sabia o que poderia ainda acontecer.

Mas uma cena que ficou para mim foi a de Ayrton na manhã de domingo. Ele estava nos boxes e ficou um tempo olhando o carro dele. Ele estava um pouco diferente, mais apreensivo, um pouco distante do que costumava ser. Obviamente, ninguém sabia o que estava acontecendo. Estranho...

Logo depois que houve o acidente, a corrida foi interrompida, e nós voltamos ao grid. Pelas imagens, pareceu que houve um grande dano no carro, mas não sabíamos de nada. Ele chegou a se mexer e eu me lembro de ter pensado: “Ok, foi um impacto forte, mas ele deve estar bem; é o Ayrton Senna, deve estar bem”. Depois, a prova foi reiniciada. E foi um baque quando veio a confirmação da morte.

Aí, duas semanas depois, vivemos um novo acidente assustador, com Karl Wendlinger em Mônaco. Ele entrou em coma por causa da batida. O Pedro Lamy, que era meu companheiro, também sofreu um acidente em Ímola. Aquele mês foi horrível. Um mês de tragédias. Apesar de tudo e de todas as coisas que passaram pela minha cabeça depois, nunca pensei em parar de correr. Nenhum de nós, eu acho, pensou nisso. Nós sabíamos os riscos, mas amamos o esporte. Por isso, acredito que continuar a correr era a coisa mais respeitosa a fazer. Era uma demonstração mesmo de respeito a esses caras. Mas, certamente, alguma coisa muita fora do normal aconteceu naquela época”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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