Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Luis Roberto

Hoje locutor esportivo na TV, em 1994 cobria a Fórmula 1 para a Rádio Globo de São Paulo

LUIS ROBERTO, do Rio de Janeiro, em depoimento a PEDRO HENRIQUE MARUM
 
Aquele fim de semana era a primeira vez que nós, brasileiros, estávamos tomando conhecimento da expressão 'roaming internacional’. Não eram os telefones brasileiros, mas eram os europeus que acabaram sendo utilizados entre países. O comentarista da Rádio Globo era um português chamado Henrique Cardão. O Cardão residiu na Bélgica durante grande parte de sua vida. Ele tinha um telefone belga e, com isso, tínhamos o roaming internacional no telefone do Cardão. Daí a possibilidade de eu estar fazendo, digamos assim, o trabalho ao vivo; outros companheiros não conseguiram. Eu dei sorte, na verdade, com aquela situação. A televisão não conseguia ter na porta do hospital, por exemplo, um link que levasse o equipamento até lá dentro com o 'real time'. Tinha que fazer no portátil e levar na Unidade Portátil de Jornalismo, que chamam de UPJ. Ali tem uma pequena antena onde aquilo é gerado. Então, acabei tendo a sorte de estar fazendo ao vivo a partir do acidente do Rubinho. Todos nós estávamos encantados com aquela história: um telefone que falava em todo canto, o mesmo número; era meio surreal você sair com seu número de casa e falar de outro país.

O Rubinho se acidentou na sexta-feira e foi para o pronto-socorro da pista. Na saída do hospital, o Ayrton foi lá ver como o Rubinho estava e falou com a gente. E eu estava ao vivo naquele instante. Então, tive até a prerrogativa dos companheiros de conduzir o início da entrevista. O Rubão, pai do Rubinho, estava ao vivo no telefone, na rádio CBN, e ouviu aquela entrevista com o Ayrton dizendo que estava tudo bem e tal. Depois, fui para Bolonha, no Hospital Maggiore, fazer uma entrevista com o Rubinho para o ‘Globo Esportivo’, também com o celular, sem saber se causava algum tipo de interferência. A médica, que era a mesma que anunciou a morte do Ayrton – porque era um plantão de fim de semana –, me autorizou a entrevistá-lo dentro da UTI. O telefone celular funcionava bem na Itália há 20 anos, funciona tão bem quanto no Brasil, 20 anos depois... O problema era a bateria porque era analógica, a tecnologia. Era um fato que dimensionava como seria a cobertura não só do rádio, mas da telefonia celular, a partir daquele padrão.

No sábado, teve o acidente do Ratzenberger. Também acabei fazendo várias entradas por conta do acidente e entrevistas com os brasileiros. O Rubinho foi à pista no sábado; no domingo, não estava lá. Ele foi vetado pelo Dr. Sid Watkins, que era o médico-chefe da F1, de participar da corrida daquele fim de semana.

E aí, o domingo. Eu e o companheiro Nilson César, da Rádio Jovem Pan, falamos com o Ayrton. No sábado, a coletiva de imprensa dos três primeiros colocados, em que o Ayrton estaria, não rolou; ela foi suspensa. No briefing dos pilotos, nós dois – muita gente ficou, mas nós dois especialmente por estarmos no rádio – ficamos na porta da sala esperando terminar. Teve um acidente na F-Porsche, se não me engano, que era preliminar da prova de F1. Fez um barulhão, e todos os pilotos correram para a janela da sala onde eles estavam fazendo a reunião. Acabou, o Ayrton saiu, conversou comigo e com o Nilson, falou para a gente que a Associação de Pilotos tinha sido recriada e que teríamos medidas de seguranças importantes; o Christian Fittipaldi provavelmente seria o presidente. Ele não passava uma expressão de tensão, mas de tristeza.

A gente foi em direção aos boxes da Williams, que por coincidência eram os primeiros naquela direção, e eu perguntei a ele: "E aí, Ayrton, deu vontade de estar aqui esse fim de semana, de não participar?". Ele não me respondeu com palavras e ficou me olhando. O Ayrton, depois que teve uma paralisia facial, tinha um olho que tremia um pouco mais que o outro. Ele tentou me responder com o olhar, algo tipo “não sei, me interprete". A sensação que deu foi um "eu estou aqui, vamos fazer, esse negócio tem de continuar, a vida tem de seguir". E aí ele entrou no box, com macacão amarrado na cintura, a camiseta do Senninha, e foi a imagem que os cinegrafistas fizeram. Ele parou atrás do carro e fez uma espécie de carícia na asa, tocando do carro da Wiliams, olhou para o carro e foi para a parte de dentro da garagem. Foi a minha última visão do Ayrton Senna sem o capacete. E minha última conversa.

Fui para a transmissão da prova. Teve o acidente, e o socorro foi feito na pista. Senna foi levado de helicóptero ao hospital. Depois da corrida, eu saí de Ímola para Bolonha, imediatamente. O Cardão foi de carro da Bélgica para lá e eu estava de carro alugado. Eu fui o seguindo e lembro bem o caminho. No meio dele, o Cardão parou o carro embaixo de um viaduto – estava um calor danado aquele dia em Ímola. Aí ele desceu e se dirigiu a mim, eu desci também, e ele me deu um abraço, do nada. E chorou copiosamente. Parecia que ele já estava dimensionando o tamanho da tragédia. Eu disse a ele: "Cardão, não tem jeito, velho, a gente tem de ir para lá. Vamos trabalhar.”

Fomos para o hospital. Chegamos lá por volta de 11h50 da manhã, hora do Brasil. Ficamos ali esperando notícia, e nada. Nós nos aglomeramos, os jornalistas que para lá foram, e já tinha um movimento de fãs esperando, especialmente japoneses. Quando foi 13h40, a médica se apresentou. Ela vestia um avental que me parecia até o mesmo da sexta-feira. Por cima, tinha o crachá com o nome dela, Dra. Maria Teresa Fiandri. As pessoas se posicionaram. Eu estava ao vivo num programa da Rádio Globo chamado ‘Agito Geral’; era o Oscar Ulisses quem apresentava àquela altura. Eu era o único ao vivo, por causa dessa situação, e a médica foi lacônica: "Às 18h40, o coração do Senna parou de bater. Senna morreu". Naquele momento, todo mundo começou a tirar os microfones e cada um foi correndo para sua solução de passar notícia: o pessoal de rádio foi para o orelhão; o Cabrini, de televisão, foi correndo para a UPJ para passar aquela fala da médica; e eu lembro que coloquei na escuta da médica o Oscar Ulisses, para processar o que eu ia fazer. Era um hábito muito forte aquela época: botei o telefone na orelha dela e ela pegou o telefone e conversou com o Oscar. Ele fez poucas perguntas e comecei a repercutir com os jornalistas brasileiros a morte do Ayrton. O primeiro jornalista que eu ouvi foi o Lívio Oricchio; depois o Flavio Gomes; e assim, sucessivamente. Ou seja, o fato de estar ao vivo se resume a isso; aí continuei entrando ao vivo, entrevistando outros companheiros, mas o anúncio da morte meio que se encerra ali.

Quando o Senna foi retirado da pista num helicóptero, todos nós percebemos que era gravidade máxima. Ele tinha lesões seríssimas. Mas a medicina é capaz de, num acidente seríssimo, fazer uma traqueostomia e manter aquela pessoa com o coração batendo. Aquela médica que olhou no fundo dos meus olhos, ela não mentiria para a gente. Se o Senna tivesse chegado morto, ela não daria a hora em que o coração parou de bater. O socorro ressuscitou na pista para que ele saísse com o coração batendo dali para o hospital. O Ratzenberger teve um atendimento no PS da pista e depois foi de helicóptero para o Maggiore porque, segundo a legislação italiana, se houvesse uma morte na pista, o evento teria de ser suspenso. E aí as pessoas passaram a desconfiar da FIA, se não tinha acontecido uma morte na pista. Quero crer que eles saíram dali com o coração batendo a morreram no hospital.

A F1 tinha tomado medidas importantes para tentar diminuir e até erradicar os acidentes fatais, essa era a ideia àquela altura. Houve ali uma sequência de mortes anteriormente que fez com que aquelas pessoas que cobriam a F1 estivessem emocionalmente mais preparadas. Mas o intervalo de oito anos – depois da morte do Elio de Angelis – nos deu a sensação de que a gente não teria mais mortes na F1. Por causa do acidente do Rubinho – o braço dele sai do cockpit –, a gente já começou a conversar com os próprios pilotos, inclusive o próprio Ayrton , sobre segurança. Falávamos que o ombro dos pilotos apareciam e que a cabeça estava muito desprotegida – tanto que depois das mortes, no GP seguinte em Mônaco, teve o acidente com o Karl Wendlinger, em que ele freia na saída do túnel, o carro fica de lado, ele arrasta e bate na proteção de uma árvore; a cabeça sofreu um impacto tão forte que ele ficou 24 dias em coma. Aí ficava claro que a recriação da Associação dos Pilotos era necessária, mesmo. As medidas de segurança precisavam ser tomadas, e o Ayrton meio que liderou isso no briefing dos pilotos no domingo. Tudo isso era emocionalmente muito estranho, ainda mais para os jornalistas para os mais novos, que nunca tinham lidado com nenhuma morte.

O caso do Ratzenberger deixou todo mundo muito abalado. Foi um dia muito triste na F1, porque foi a primeira morte em oito anos, e aí morreu a maior estrela da companhia. De um modo geral, eu acho que nós, jornalistas, temos um alvo no emocional, que nos leva a exercer nossa profissão, que é um sacerdócio, nas horas de crise. É preciso ter bom senso. O jornalista tem esse dom. E eu tive lá meu momento, como os companheiros que estavam comigo.

Eu dividia o quarto no hotel com o Cândido Garcia, que já nos deixou, e era repórter da Rádio Bandeirantes. Nós fomos para o hotel entre a transferência do corpo do Ayrton do hospital para o IML, para tomar um banho e mudar de roupa – estava um dia muito quente em Ímola. E na porta do IML, o Candinho desabou. Eu tive de consolá-lo. Eu tive meu momento, que foi entre o IML a troca de hotel; a gente foi para um mais próximo do aeroporto. Estava lá o irmão do Ayrton, o Galvão Bueno – que me ajudou muito, me passando essas notícias e em todos os movimentos. E foi meu momento de desabar, ser consolado pelo Candinho. Acho que é um dom do jornalista, conseguir se manter ligado, neutro, com filtro para as notícias e ter de levar a melhor informação para as pessoas. É meio que um dom mesmo de quem escolhe essa profissão.

A ficha demorou a cair. Todo aquele período foi muito intenso. Dei muitas entrevistas, fui ao programa do Paulo Lopes, no SBT, em que ele levou figuras que tinham relação com o Ayrton – e dentre os jornalistas, resolveu me levar; ele também trabalhava na Rádio Globo e tinha dimensão do trabalho que tinha sido feito lá. Foi um período que veio como uma espécie de tsunami no meu dia-a-dia, o enterro e tal. E aí, na semana seguinte, fui para Mônaco. A ficha só caiu quando acabou a corrida, naquele domingo. Um companheiro que trabalhou como editor de economia do Estadão, Tim Teixeira, me escreveu um texto para ler na abertura da transmissão aquele dia. Porque tinha uma relação: Ayrton era o Rei de Mônaco, mas era uma corrida diferente – imagine Mônaco sem o Ayrton... Depois eu desci para caminhar pelos boxes, e a Williams colocou um carro só na pista, com o Damon Hill. No box que seria do Senna, a porta da garagem ficou fechada e ficou a bandeira do Brasil a meio mastro. E lá estava o Frank Williams na cadeira de rodas, olhando para o infinito, sozinho, sem ninguém em volta dele, embaixo exatamente da bandeira do Brasil. Eu fiquei olhando aquela situação – é uma pena, porque naquela época a gente não tinha a facilidade das câmeras digitais, mas como eu gostaria de ter o registro de uma foto daquela situação. Ali deu o estalo.

E é difícil dimensionar o que foi todo aquele fim de semana. Não estou sendo demagogo com isso, não. Fazer a cobertura de um evento importante – seja ele trágico, feliz com um título ou vitória – sempre acrescenta e te eleva como profissional. O fato de estar ali, falando com milhares de pessoas através da Rádio Globo e através das coletivas, do Sistema Globo de Rádio e da CBN, da repercussão que aquilo provocou, passou para as pessoas uma percepção na linha do “esse cara, posso confiar nele". Isso é o que fica mais incorporado ao patrimônio do jornalista, que é a credibilidade. As pessoas perceberam, assim, que tinha um cara que, no momento de crise, soube conduzir uma situação grave, de crise, e trazer a notícia adequadamente. Claro que muita gente pode não ter concordado com a forma como eu conduzi os fatos. Mas, pela minha percepção, a maioria das pessoas entendia que o trabalho estava bom e bem feito. Talvez seja o maior reflexo da minha vida”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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