Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Nilson César

Locutor esportivo, narrou o GP de San Marino de 1994 pela Rádio Jovem Pan

NILSON CÉSAR, de São Paulo, em depoimento a GABRIEL CURTY
 
Nós falamos com o Ayrton na sexta-feira. E a última pergunta dessa entrevista coletiva foi minha – o ‘Cartão Verde’, da Cultura, à época, reproduziu esta entrevista. “Ayrton, os carros sem controle de tração, os pneus cada vez mais estreitos e os motores cada vez mais possantes: a morte está cada vez mais perto da F1?”. Eu não sei por que eu perguntei isto, mas eu fiquei com vontade. Teve aquele acidente do Rubinho... E foi antes da morte do Ratzenberger. “Não, a F1 é um esporte de risco, todos que estão aqui sabem que corremos risco mesmo, temos de lutar por mais segurança”, ele respondeu.

Todos os que estiveram naquele final de semana em Imola perceberam que a atmosfera daquele lugar era diferente. Começou com o acidente na sexta, depois a morte no sábado, o acidente na corrida com o Pedro Lamy e o JJ Lehto, teve acidente também na categoria que vinha antes, F-Opel, eu acho... Tudo conspirava de maneira errada. Aliás, foi um fim de semana só de hospital. Eu senti, sim, algo estranho. Foi engraçado, por assim dizer. Eu já tava bem rodado na F1, na minha oitava temporada cobrindo as corridas aqui na rádio Jovem Pan, acostumado. Já tinha visto outros acidentes, mas aquele clima e aquele ambiente, todos que estavam no autódromo e tinham um pouquinho mais de sensibilidade, conseguiam sentir.

Continuei narrando a corrida depois do acidente e não me lembro bem com quem fui para o hospital. Continuei narrando porque precisava fazer isto. O Flavio Gomes era o meu comentarista naquela prova. No instante da batida, eu falei: “Meu Deus, minha nossa senhora”, minha expressão na hora foi esta, “batida muito forte do Ayrton, violenta batida”. É engraçado que a gente sentiu que algo muito mais grave estava acontecendo desde o instante que bateu, deu pra sentir a gravidade. Aí peguei o carro e fui para o Hospital Maggiore. A gente perguntava pra médica e ela dizia que não estava entendendo. “O rapaz chegou destruído, mas o coração dele ainda estava batendo”. Ela dizia que ele ainda estava vivo, mas assegurava que em quatro ou cinco horas ele iria morrer, porque não tinha mais o que fazer – talvez ele já tivesse chegado com morte cerebral. Acontece que a resistência desse rapaz era tão grande, ele era tão forte, que o coração continuou batendo. A médica tinha de esperar o coração parar de bater para constatar a morte do Ayrton.

A tristeza foi imensa. Eu não conseguia dormir de madrugada. Fui com o Luis Roberto de Múcio – a gente ficou no Hotel Internazionale – em Milão, ao lado do IML. De madrugada, fomos ao IML, e lá estavam os corpos do Ayrton e do Ratzenberger. Claro que não vimos os corpos, mas estavam lá. Lembro até do nome do guarda, Paolo, torcedor da Juventus. Na época tinha um brasileiro na Juventus, o Júlio César. Pois o Paolo queria mudar o assunto, falava de futebol e a gente sem clima. Nós só fomos pro IML de madrugada porque não conseguíamos dormir. Parece que o Celso Itiberê, que tava n’‘O Globo’, também estava lá. Éramos nós três. E vimos aquilo tudo, o prédio antigo, aquela coisa sombria, o vazio imenso, o vazio que só ficou maior na corrida seguinte.

Em Mônaco, o primeiro lugar do grid ficou vazio, se não me engano. Parecia que a gente tinha perdido um membro da família: os jornalistas e os pilotos formavam uma espécie de grupo próximo que se encontrava todo final de semana. OK, não tinha a afinidade de uma família – e eu acho que jornalista não deve ter tanta afinidade com jogador ou piloto, mas a sensação era que a gente tinha perdido um ente. Demorou um tempão para cair a ficha, se acostumar à F1 sem o Senna, e teve um acidente muito violento em Monte Carlo. Ficou um vazio tão grande que o brasileiro, 20 anos depois da morte do Senna, não conseguiu redescobrir a paixão pela F1. É um país de monocultura, os outros esportes são sazonais, só são fortes quando algum brasileiro se destaca. Quer ver o brasileiro voltar a ter paixão pela F1? Só vai acontecer quando tiver algum piloto brasileiro vencendo corridas. Enquanto não tiver, só vai acompanhar aquele que realmente gosta de automobilismo; a grande massa só vai ficar sabendo dos resultados. Esse foi o preço que o Brasil pagou por não ter outro grande piloto depois do Senna.

Aquele episódio me marcou muito. Eu costumo brincar, quando dou palestras em faculdades, que aquele final de semana me representou algumas faculdades. Foi marcante: nós participamos de um momento histórico para o país, ninguém queria que isto tivesse ocorrido; a última coisa que o brasileiro queria ouvir é que o Senna tinha morrido. Aquilo me trouxe uma maturidade profissional muito grande. Hoje eu já estou bem mais ‘puta véia’ nesta história, mas na época eu tinha 33 anos, 12 anos de Jovem Pan e oito na F1. Só aquela cobertura daquele final de semana representou algo como se tivesse ganho uma bagagem daqueles oito anos de F1. No mínimo, multiplicou a minha experiência em coberturas jornalísticas”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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