Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Reginaldo Leme

Dispensa apresentações

REGINALDO LEME, de Interlagos, em depoimento a RENAN DO COUTO
 
Como normalmente, estava assistindo aquele primeiro treino livre na sala de imprensa. Não vi na hora que aconteceu a batida do Rubinho – e acho que nem a televisão –, só na hora do replay. Vi o carro parado e a cabeça do Rubinho caída. “Nossa senhora...” Juro por Deus: a única coisa que fiz foi rezar. Rezei pela vida do Rubinho. Ele foi para o hospital do autódromo. Entrei junto com o Senna. Permitiram a ele que entrasse, a mim não. Entrei pela barreira junto com ele. Fiquei esperando e, quando o Ayrton saiu, falou que ele estava bem, talvez tivesse quebrado o nariz. Essa foi a sexta-feira.

No sábado, o Rubinho chegou ao autódromo com o Geraldo Rodrigues com o braço enfaixado, tinha um curativo no dedo e outro pequeno no nariz. Eles estavam indo ao motorhome do Ayrton. “Vamos com a gente para ver se já é hora de falar com ele?” Fui, bati na porta e veio uma moça. “Fala para o Ayrton que o Barrichello está aqui fora”, e ficamos os quatro conversando.

Aí acontece o negócio do Ratzenberger. Isso destruiu o Ayrton por completo. O cara estava acabado. Se você tentava falar com ele, não é que ele não queria: as palavras não saíam. Ele estava circunspecto. Disso, tem a famosa imagem que foi feita pelo nosso cinegrafista, o francês Armando Deus, do Ayrton olhando o carro dele dentro do box, sozinho, com a mão no aerofólio, pensativo, com aquele olhar distante. Muita gente fala: “Ah, é pressentimento, alguma coisa desse tipo”. A minha visão é realista: tremendamente aborrecido, chateado pelo o que tinha acontecido com o Ratzenberger, mas pensando: “Caramba, o que é que não deixa esse carro andar?”. O carro que tinha sido campeão absoluto com o Prost no ano anterior. A frase dele para mim, logo depois da corrida de Aida, no Japão, foi: “Justo na minha vez? Escolhi a melhor equipe, o melhor carro, e o cara erra?” E não era bem um erro, era uma coisa dessas que pode acontecer com qualquer projetista, tanto que era o Adrian Newey. Está acontecendo agora com o carro da Red Bull e daqui a pouco ele corrige. A prova disso é que o Damon Hill, segundo piloto e anos-luz atrás do Senna, chegou à última corrida do ano disputando o título palmo a palmo com o Schumacher na Austrália. Você imagina se fosse o Ayrton Senna, se ele tivesse tido um pouquinho mais de paciência, se não tivesse que tomar as decisões que tinha que tomar apressadamente porque não agüentava mais perder – ele falou isso –, teria chegado três corridas antes da Austrália como campeão. Acho eu.

No sábado à noite, eu não participei do jantar. A gente tinha brigado em 1990 e reatado em 1992. Mas isso não quer dizer que eu tinha voltado a ser um cara de jantar com ele toda noite. Jantava de vez em quando e conversava muito no autódromo. Aliás, quando ele me procurou para reatar, falou exatamente isso: “Vamos esquecer tudo que aconteceu. Hoje eu reconheço um monte de coisas, você deve reconhecer um monte de coisas. Eu estou aqui à disposição quando você quiser conversar”. Quando estávamos eu e ele sozinhos – ou eu, ele e o Galvão – era a mesma coisa de antes da briga. Mas nessa corrida, além do Galvão, estavam o Braguinha, o Leonardo Senna, o Ubirajara Guimarães, a Betise Assumpção e mais um convidado. Eram seis pessoas no jantar, e eu não fui.

Eles jantaram, e tem toda aquela história que o Galvão conta. O Frank Williams perguntou para o Galvão como que o Ayrton estava, que tinha muito medo de ele não correr. O Galvão falou: “Frank, fique sossegado que você conhece o Ayrton e ele não faria isso.” O Frank respondeu: “Sim, mas, por favor, eu vou dormir com a porta encostada para o Ayrton passar no meu quarto quando vocês voltarem do jantar porque eu quero falar com ele.” O Ayrton fez isso.

No domingo, eu me lembro que estava com o Xandy Negrão, que corria aquelas preliminares de Porsche. Fomos lá conversar com o Ayrton e ele estava completamente diferente devido a tudo que tinha acontecido. Mas foi para a corrida, profissional que era.

Um detalhe interessante é que a cabine vizinha à nossa era a da TV da Áustria, e quem transmitia era o Heinz Prüller, um velho amigo. No acidente do Rubinho, o Heinz, terminando o trabalho, veio conversar comigo. “Puxa vida, perigoso. Que sorte, podia ter morrido.” No dia seguinte, morre um austríaco. De novo, conversamos. “Como é a vida. Ontem eu falando com você por causa de um piloto brasileiro, hoje morre um austríaco”, ele disse. No dia seguinte, não tem o negócio do Senna? Volto a encontrar com o Heinz, que estava aborrecidíssimo.

Foi todo mundo de helicóptero para o hospital e ficou aquele negócio de “morreu ou não morreu?”. Eu fiquei na cabine com o técnico de som, o Cláudio Amaral, fazendo a ‘ponte’. Era o começo do celular no Brasil, e o Roberto Cabrini foi para Bolonha e de lá ficava no celular. Só que, em vez de falar direto com o Brasil, passava pela nossa mesa de som para o som chegar melhor na TV Globo. Enquanto a gente estava nesse trabalho, o Rubinho, que tinha ido para a Inglaterra no sábado, ficava me ligando de cinco em cinco minutos. Eu me lembro da primeira frase do Cabrini quando ele entrou com a notícia: “Estou aqui agora para dar a notícia que ninguém gostaria de dar. Acaba de ser decretada a morte de Ayrton Senna...” Deu mais uns poucos minutos, o Rubinho ligou de novo e eu dei a notícia.

Terminou esse negócio todo, desmontamos tudo e eu ia para Bolonha para ancorar o ‘Fantástico’ junto com o Pedro Bial, que tinha ido de Londres para lá com a equipe toda. Quando desci da cabine, vi que tinha muita gente me esperando. O Jo Ramirez, todos os caras que sabiam dessa amizade, TVs da França, da Itália... Nossa, eu dei entrevista para todo mundo. As equipes desmontando tudo para fechar o autódromo, já era quase noite, e o Jo Ramirez ficou num abraço que durou uns cinco minutos. Dali, fui para o meu hotel, tomei um banho correndo, troquei de roupa e fui para Bolonha. O ‘Fantástico’ terminou quatro horas da manhã no horário da Itália.

O nosso diretor na Globo era o Alberico Souza Cruz, que teve uma brilhante ideia no dia seguinte: “Corre em uma loja e compra uma câmera.” Entrei no aeroporto, botei a bateria para carregar no banheiro por cinco minutos e entramos no voo. Chegamos em Paris, botei na tomada por mais cinco minutos. No avião, ia ao banheiro, carregava um pouquinho e filmava, carregava um pouquinho e filmava. Fizemos um acordo de não filmar aonde estava o caixão, que era a classe executiva, e foi isso. E a chegada rendeu uma filmagem bacana, que foi ao ar pelo ‘Jornal Nacional’, e eu me orgulho de ter feito. O comandante deixou entrar na cabine, e tem o avião descendo com todas as pessoas em volta. Deixei a câmera ligada, enquanto eu tive bateria, gravando as comunicações entre comandantes.

Os comandantes todos que estavam voando por perto disseram frases bonitas. Como “campeão, bem-vindo a sua casa”.


IMAGEM MAIS MARCANTE DO FIM DE SEMANA

Foi o Ratzenberger. Depois de todas as batidas, aquela última, que tem ele escorregando no guard-rail com a lateral do carro aberta. Você vê as pernas dele e a cabeça totalmente caída. Para mim, essa foi a mais dura”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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