Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Roberto Cabrini

Então repórter da TV Globo, anunciou em rede nacional a morte de Senna

ROBERTO CABRINI, de São Paulo, em depoimento a PEDRO HENRIQUE MARUM
 
Eu tive a percepção de que era a pessoa que o Brasil esperava para ouvir no caminho para o hospital. Lembrei as palavras do Senna no dia anterior me dizendo que o Ratzenberger tinha morrido na pista – ele tinha me dito aquilo em off. Vi, assim que bateu, que tinha sido muito grave. No caminho para o Hospital Maggiore, fui pensando no que ele tinha falado, mas já me preparava emocionalmente para o pior. Fomos, o camera-man e eu, uns dos primeiros – senão os primeiros – a chegar, logo depois dele. Saímos antes, mas Ayrton foi de helicóptero e acabou chegando de 10 a 15 minutos antes. Quando cheguei, notei os médicos preocupados em dar entrevistas coletivas em vez de cuidar de um piloto que lutava pela vida; imaginava médicos assistindo Ayrton. Foram quatro boletins, e a coisa foi evoluindo. Eu sabia que tinha de me controlar, mas, ao mesmo tempo, demonstrar respeito. Tinha de fazer com emoção, porque ele era um ente querido coletivo do país. Tratamos com emoção, mas com respeito e firmeza. Isso fica resumido naquela simples frase que talvez muita gente tenha esquecido: "Uma notícia que a gente jamais gostaria de dar: morreu Ayrton Senna da Silva".

Sobre ele ter saído morto da pista, tive essa impressão na época – e os pilotos que lá estavam têm, como me disse o Nicola Larini. Mas é complicado que eu pense assim. Os médicos causam boa impressão. A Dra. Maria Teresa Fiandri, que era chefe de reanimação do Hospital Maggiore, e o Dr. Giovanni Gordini, primeiro que o atendeu, afirmam que ele tinha atividade cardíaca quando chegou. E fizeram exames complexos e caros. Não acredito que os médicos que olharam para mim e falaram olho no olho estivessem mentindo.

O que posso dizer com toda certeza é que a relação que eu tinha com ele teve influência naquele dia. Eu sabia que as informações precisas eram mais importantes, mas eu convivia com o Ayrton, viajava o mundo todo com ele. Fico feliz com o resultado, porque consigo ver profissionalismo no trabalho duro que tive durante aqueles dias.

E aqueles dias me prepararam. Meu emocional foi fortemente preparado. Eu fui preparado para cobrir guerras. Em guerras, você tem uma cobertura logisticamente mais difícil, como foi naqueles dias em Ímola. E também me preparou psicologicamente. Eu me tornei mais dono do controle de meu próprio equilíbrio. Você jamais pode se deixar ter medo. E não ter medo é algo que você aprende com experiências que soma durante sua história. Talvez aquele final de semana tenha mudado os rumos da minha carreira.

Eu já fazia jornalismo investigativo e ali assumi essa pele. Passei a me dedicar exclusivamente a esse tipo de jornalismo, fiz muitas coberturas de guerras e segui nesse campo pelos últimos 20 anos. Conciliava isso à F1, mas refleti e vi que tinha terminado um ciclo. Fiz F1 por mais um ano, e foi só. A Globo me ofereceu luvas para continuar, me tratou sempre com muito carinho, mas vi que era a hora e outro rumo na carreira. O ciclo da F1 tinha chegado ao final.

E pensando na F1, se existe um legado deixado por aquele acidente é a segurança. A partir daquele momento trágico, a segurança passou a ser prioridade. A célula de sobrevivência, por exemplo, passou a ser fortalecida. Isso é um legado do Senna.

Como legado profissional com ele, penso que eu fazia as perguntas que entendia serem necessárias. Nunca deixei de fazer o que meu dever de repórter exigia; fiz perguntas duras e sérias. Gostava dele, do Ayrton Senna ser humano. Fica mais fácil diferenciar a pessoa do mito com a convivência, e estive com ele em muitos momentos difíceis. Um cara muito bacana, doce, brincalhão, agradável de lidar. O Galvão Bueno sempre foi muito mais amigo dele. Eu gostava dele, tínhamos uma relação muito boa. Por essa relação, ele me dava acessos aos quais eu era muito grato. Mas nunca deixei de fazer meu dever de jornalista. Nunca deixei de ser repórter”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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