Edição 49
Abril/2014

20 nos 20: Ron Dennis

Sócio da McLaren, foi o chefe de equipe de Ayrton Senna em seus três títulos mundiais

RON DENNIS, de Woking, em depoimento a EVELYN GUIMARÃES
 
Eu tenho uma postura muito firme sobre a forma como eu lidei com aquele dia. Quando você se encontra emocionalmente envolvido, é preciso pensar muito no que aconteceu, compartilhar os sentimentos e depois colocá-los em um lugar especial em sua mente. E aí se concentra na vida. Em viver.

Eu não acho que Ayrton mudaria nada do que aconteceu; ele perdeu a vida fazendo algo que o apaixonava e que era a sua vida. Ele, na verdade, abria mão de muitas outras coisas que diversos outros pilotos gostavam, mas porque era completamente dedicado, focado e queria tremendamente obter a satisfação de vencer as corridas, de viver experiências emocionais edificantes. Buscava voltas fantásticas de classificação. Era a adrenalina de buscar ser o melhor, de ganhar os campeonatos mundiais. Foi sempre uma montanha-russa emocional, mas nunca se permitiu achar que já era suficiente.

Certamente, ele também viveu momentos difíceis, como em Suzuka e o acidente com Alain Prost. Ele ficou profundamente afetado pela injustiça que ocorreu depois daquela corrida. E posso dizer que foi muito difícil de convencê-lo a voltar e a continuar competindo. Esse era o tipo de pessoa que ele era. Se ele se encontrasse em uma situação que se sentisse injustiçado, ou que uma ação dele pudesse prejudicar outra pessoa ou mesmo o esporte a motor como um todo, ou outros pilotos, ele ficaria bastante interessado em ajudar e colocar o seu ponto de vista de maneira construtiva.

É claro que, tendo trabalhado com um grande número de pilotos, todos possuem elementos que são únicos e particulares. Ayrton era único em muitos aspectos: era dedicado, foi um dos pioneiros no que diz respeito à preparação física dos pilotos, descobriu que poderia se colocar em um nível muito alto de preparação física e que isso iria influenciar positivamente a sua condução. Isso apenas fazia parte de sua obsessão em ser o melhor.

Quando ele se juntou à equipe, não tinha muito senso de humor. Isso pode não parecer muito real porque muitos imaginam que na equipe somos mais sisudos e menos apaixonados, mas posso dizer que não é assim – dentro da equipe, o ambiente é bem diferente. Mas eu dizia... Ele não tinha senso de humor quando chegou aqui, por isso eu iniciei um processo de mostrar a ele a importância do riso, e foi uma ótima maneira de quebrar essa tensão. E claro que essa situação se tornou ainda melhor quando Gerhard Berger e eu não parávamos com as piadas. E elas eram extremas. Até que ele viu que havia também um elemento de competitividade nisso, ou seja, de quem poderia fazer as armações mais ultrajantes para o outro, e aí ele entrou finalmente no espírito.

Como resultado final, a tensão acabou, o ambiente era muito tranquilo e descontraído, e isso era muito bom para todos, além do relacionamento dos dois ter ficado ainda melhor”.
 


A série ’20 nos 20’ traz 20 depoimentos de quem acompanhou bem intimamente esta morte exageradamente triste. A grande maioria estava em Ímola e acompanhou cada minuto do acidente fatal que mudou vidas para sempre.

 
 

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