Estepe: Batendo no teto

Vivendo uma queda de audiência global sem mexer na massa para acertar a receita, a F1 volta a viver uma rebelião interna de quem está descontente com tanto gasto e pouco resultado efetivo

RENAN DO COUTO, de Barcelona
A F1 procura os lugares mais ricos, mas o dinheiro não não cai no bolso das equipes. Resultado? Pires na mão. (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
A F1 parece nunca estar satisfeita consigo mesma. A cada mudança realizada no Mundial, críticas surgem daqui, sugestões de que outro caminho deveria ser seguido dali, como se nada agradasse a todos. É o que está acontecendo em 2014, ano em que uma revolução deu início à era dos motores V6 turbo e expôs como há diferentes maneiras de se enxergar a categoria.

Enquanto alguns defendem que a F1 precisa ser pioneira e partir em busca de inovações de olho no futuro da indústria automobilística, outros reclamam que o campeonato está perdendo sua essência e se afastando do que o ponto máximo do esporte a motor deveria ser. A questão do ruído do motor entra na discussão para simbolizar essa perda de características que marcaram a categoria no passado e colaboraram na criação de uma identidade.

Nos bastidores, discussões a respeito do que pode ser feito para mudar esse panorama têm seguido em várias direções: desde a busca por medidas que sejam atrativas para o público do ponto de vista esportivo e técnico até soluções que visam garantir o equilíbrio entre os participantes e estabelecer um ambiente em que a competição não dependa tanto do orçamento dos participantes – entra aqui a discussão acerca da introdução de um teto orçamentário.

A queda da audiência global da F1 na última década é um fato consumado – embora esse não tenha sido o único esporte que notou uma queda nos números de telespectadores recentemente. Aliás, não é só o esporte que anda meio que sem rumo.

O avanço da tecnologia nas comunicações está mudando a forma como a população se informa e se entretém em todo o planeta. Os modelos consagrados de mídia estão em crise com as inúmeras opções de escolha e, especialmente, pela internet estar ao alcance de cada vez mais gente. A televisão vai aos poucos deixando de ser o principal meio de comunicação.

Isso tem influência direta não só sobre a F1, mas sobre os esportes em geral porque boa parte das contas sempre foi paga com a venda dos direitos de transmissão. E se há menos gente assistindo, é preciso descobrir que razões levam a isso e como reagir às novas mídias de informação. As empresas de jornalismo, por exemplo, estão sofrendo bastante com isso, e as firmas publicidade também não descobriram como explorar da melhor maneira possível esse novo mundo.

No que compete ao Mundial de F1, parece haver um consenso de que é preciso se adequar a essa nova realidade e promover mudanças. A questão é: como reagir?
Monisha Kaltenborn chefia uma equipe que passa por sérias dificuldades financeiras. E é quem mais pede por misericórdia. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)

A satisfação do consumidor em primeiro lugar

Apesar de toda essa crise de identidade e da redução na popularidade, a F1 continua sendo uma das melhores plataformas do planeta. 65 temporadas após sua criação, é o único Campeonato Mundial que acontece anualmente com eventos no mundo todo – a Copa do Mundo da Fifa, por exemplo, é realizada de quatro em quatro anos em um único país. Tal calendário permite exposição em todos os cantos do planeta e facilita o relacionamento com parceiros em escala global.

É por isso que Monisha Kaltenborn faz questão de ressaltar, antes de começar a responder a pergunta feita pela REVISTA WARM UP no paddock de Barcelona, que a F1 está longe de ser um produto ruim. A solução não é fácil. “Quanto tempo você tem?”, indaga ao repórter e emendando uma risada.

A dirigente, uma das que mais clama por mudanças, apenas acredita que ajustes são necessários para maximizar o potencial desse produto. “A F1 não é nada ruim. Ainda é uma das maiores e melhores plataformas que você tem no esporte, com uma presença global durante o ano todo, pode mostrar altos níveis de tecnologia, tem uma tremenda quantidade de fãs e, com as novas regras de motores, temos corridas muito boas. Então não é ruim como as pessoas gostam de ver”, diz Monisha. “Há certas coisas que precisamos ajustar: como você lida com a F1 é que tem de mudar.”

Para o diretor-esportivo da Pirelli, Paul Hembery, o primeiro passo é atuar como uma empresa e entender onde está o desejo do consumidor. O inglês acredita que o esporte não é feito para apenas quem o pratica, mas para quem o assiste.

“Eu acho que, como você está em um negócio, a primeira coisa que tem que fazer é entender o que os fãs querem. E eu acho que é muito perigoso para um esporte como a F1 inventar regras que são diferentes do que os fãs esperam”, diz Hembery à RWUp. Minha única sugestão neste estágio é uma extensa revisão do que o público espera de um evento de automobilismo, da elite do automobilismo. São eles que precisamos agradar. O que eles querem ver: uma versão WWE da F1 ou uma corrida de tecnologia? Esses são os dois extremos.”

Hembery destaca que tudo depende, também, do que a F1 quer apresentar. “Se você quer estar em um esporte que é visível, tem que entregar um produto que o público queira ver”, comenta. Ao mesmo tempo, as montadoras podem pensar de maneira diferente: “Querem mais audiência, mas também querem demonstrar tecnologia.”
“A maior parte das críticas das novas regras veio de dentro da própria F1, não de fora. Somos nós mesmos arruinando o projeto”
– Monisha Kaltenborn, chefe da equipe Sauber
Claire Williams pede mais justiça: uma F1 mais equalitária (Foto: Clive Rose/Getty Images)
Kaltenborn argumenta que esse processo de adaptação deve se sustentar em três pilares: a própria categoria aprender a tomar mais cuidado com sua imagem, analisar como o atual cenário econômico vai influir na competição e repensar a maneira como o produto é apresentado para os fãs diante das possibilidades oferecidas pela internet.

“A maior parte das críticas das novas regras veio de dentro da própria F1, não de fora, então somos nós mesmos arruinando o projeto. Uma coisa é ter sua opinião, outra coisa é acabar com o negócio. A diferença entre isso é como noite e dia. Depois, temos que ver para onde o esporte vai”, analisa a dirigente. “Para sermos atraentes, temos de ter uma competição justa. O que temos que observar internamente é como é o nosso processo de tomada de decisões. Não é só um esporte, é um negócio e você precisa ter transparência nisso. E, nos assuntos comerciais, o esporte tem que ser uma competição saudável, o que não é no momento”, completa Claire.

A chefe da Sauber insiste que não significa que todos precisam ter o mesmo. “Mas o ambiente tem de ser saudável”, salienta. “E a terceira parte é como fazer o show ser um atrativo para os fãs. Como trazer mais gente, mais canais de TV para transmitir, as novas mídias. Talvez seja a hora de repensar o formato. Há muitas áreas em que precisamos trabalhar.”

Hembery, que garante que a Pirelli, embora preocupada, está satisfeita com o que a F1 lhe permite fazer atualmente, pensa que a busca pela solução passa por conversas com as emissoras de TV.

Desde que Bernie Ecclestone, na década de 1970, assumiu a liderança das equipes nas negociações pelos direitos de transmissão, a televisão é o meio de comunicação “oficial” da F1. É por ela que a maior parte dos fãs se informa e que todos eles assistem às provas. E Hembery fala que as TVs lidam com esses fatores diariamente e, por isso, podem apresentar uma visão construtiva de que tipo de produto vai ser melhor aceito.

“Quando eu estava crescendo, tinham um ou dois canais de esporte; hoje, tem centenas. Há esportes de todos os tipos, e você pode conseguir uma forma de assistir. Então eu acho que, no geral, todos os esportes estão sofrendo do fato que as pessoas têm escolha”, pondera. “Outra coisa é que as pessoas estão vendo cada vez menos televisão. Os mais jovens tendem a assistir filmes e mais coisas de entretenimento em seus computadores ou em outros dispositivos. As coisas estão mudando e afetam todo tipo de negócio. Você pode ter essa conversa em qualquer esporte, na indústria do cinema e da televisão. Canais de TV sabem o que a audiência vê e vão adequar seus produtos para isso. É nisso que temos que focar antes de fazer as mudanças. É importante entender o que estamos tentando entregar”, avalia Hembery.

Claire Williams, outra que se diz contente com o que vê na F1 atual e pensa que somente alguns ajustes são necessários, afirma que o Grupo de Estratégia da F1 está analisando diversas propostas que visam fazer a popularidade do Mundial voltar a crescer.
 
Sem especificar quais são essas propostas, a inglesa faz apenas um alerta: é preciso tomar cuidado com cada ideia que se levanta porque tudo tem implicações financeiras – e não são todos os times que têm condições de topar qualquer desafio.

Além disso, a filha de Frank Williams indica que o conservadorismo das pessoas que comandam o campeonato deve manter em ritmo lento parte das mudanças. Na opinião dela, a F1 só costuma reagir quando vive momentos de crise. Simultaneamente, defende que novidades não devem ser abandonadas só porque a recepção foi negativa em um primeiro momento.

“É perigoso vir com uma ideia porque você não sabe a implicação de custos para os times. Reagir muito rápido, antes das pessoas se acostumarem, porque as pessoas naturalmente não gostam de mudanças. É preciso deixar elas se firmarem e depois reagir”, afirma. “Essas propostas que estamos analisando agora mostram que todos estão querendo melhorar a F1. Acho que a F1 é ótima, não me entenda mal, mas você sempre pode melhorar o show para os fãs e garantir que os patrocinadores continuem envolvidos. Tudo o que estamos olhando no momento é com as melhores intenções de que vamos proteger o futuro a longo prazo da F1. Qualquer medida tem que ser eficiente nos custos e tem que melhorar o show. Não pode simplesmente custar mais dinheiro”, alerta.

Dentre os motivos que geram descontentamento nos fãs estão a substituição de GPs clássicos por circuitos modernos e sem histórias e regras como a pontuação dobrada na última etapa de 2014 e o DRS. Ao menos esse primeiro item, neste ano, foi tratado de forma mais positiva com as saídas dos GPs da Coreia e da Índia do calendário e o retorno do GP da Áustria.
Proposta defendida por Ferrari e Red Bull é que a venda de chassis possa voltar a acontecer, como já foi no passado

Mantendo a conta no azul

Cinco anos depois, a F1 volta a discutir com veemência a questão dos custos que envolvem a participação no Mundial e a introdução de um teto orçamentário. Dessa vez, as equipes se mostram mais divididas e, principalmente as médias e pequenas, extremamente preocupadas com os rumos do esporte nos próximos anos.

Em 2009, até mesmo uma debandada geral chegou a ser anunciada para fazer o então presidente da Federação Internacional de Automobilismo, Max Mosley, voltar atrás na decisão de implantar um limite de gastos de £ 40 milhões (aproximadamente R$ 150 mi em valores atuais) na temporada 2010. Bernie Ecclestone tratou de mexer seus pauzinhos nos bastidores para costurar o acerto que manteve a F1 como ela é.

Acontece que, desde então, muitas tentativas de se reduzir os gastos das escuderias fracassaram, e o que se notou foi um crescimento do abismo que separa as equipes pertencentes a montadoras e a Red Bull das ‘garagistas’. Falou-se muito no RRA (acordo de restrição de recursos), mas ele acabou desmanchando a Fota e sendo abandonado na sequência.

O problema é que, a todo momento, a saúde financeira de alguns times sofre baques que geram inclusive dúvidas a respeito de sua continuação no Mundial. Em 2013, por exemplo, a Sauber viveu momentos difíceis. Do final do ano passado para cá, a Lotus é que começou a dar sinais de fraqueza e a viver maus bocados.

O principal motivo de conflito entre os times no momento envolve a rejeição por parte do novo Grupo de Estratégia da F1, braço criado pela FIA para trabalhar na elaboração das regras do campeonato.

Formado pela FIA, pela FOM e por seis equipes – Ferrari, McLaren, Red Bull, Mercedes, Williams e Lotus –, com cada uma das partes tendo representação igual, o Grupo de Estratégia derrubou uma votação unânime que ocorrera antes de sua instituição, na qual todas as escuderias aprovaram a introdução do teto orçamentário. As equipes menores continuam tendo representação, mas na Comissão da F1, que também inclui promotores de eventos e fabricantes, dentre outros, portanto, seus votos têm peso menor. Bob Fernley, chefe-adjunto da Force India, reclama que o Grupo de Estratégia não pode ter força para derrubar decisões que são unânimes.

Perguntado pela RWUp, Toto Wolff, diretor-executivo da Mercedes, deixa claro seu ponto de vista: a competitividade da F1 no futuro e o consequente interesse dos fãs depende totalmente do equilíbrio nas finanças.

“Está claro que precisamos olhar para os custos. Os times têm pensamentos diferentes. Para ter todo mundo no mesmo barco, é difícil, mas precisamos frear a espiral crescente dos gastos, e há muitas formas, seja por um teto orçamentário, seja pelas regras”, avalia. “Agora, vimos no passado que as equipes nunca aceitaram o teto – por várias razões. Seja a Ferrari, sejam outras equipes que têm traumas com a FIA, ou a Red Bull, que tem a posição de não deixar ninguém olhar para dentro da companhia. Temos de ser realistas e cortar gastos de uma forma que não danifique o esporte e não resulte em uma perda”, prossegue.

No último dia 1º de maio, o Grupo de Estratégia realizou uma reunião com todas as equipes em que se solicitou que as escuderias que não estivessem diretamente representadas apresentassem suas propostas para reduzir os gastos, incluindo ou não um teto. Outra reunião aconteceu uma semana depois.
Franz Tost é cético: sem apoio das grandes, teto orçamentário é utopia. (Foto: Paul Gilham/Getty Images)
Franz Tost, chefe da Toro Rosso, crê que a implantação de um limite de gastos jamais vai acontecer porque os principais times não vão aceitar. A Red Bull, que, de certa forma, ele representa, é contra a medida porque não deseja abrir os registros das transações da empresa. Outro que já declarou abertamente ser contra é Ron Dennis, CEO da McLaren, que prefere enxergar a F1 como um campeonato para quem tem dinheiro e está disposto a gastar. Quem não tem, que vá para outro canto.

Verdadeiro ou não, o principal argumento que tem arrastado as conversas acerca da implantação de um teto orçamentário no Mundial é que é impossível controlar as movimentações de dinheiro.

A chefe da Sauber discorda. “Eu não acho que em alguns dos países onde as nossas equipes estão situadas não é preciso manter caixas pretas, então não acho que isso deve ser um problema. Nós, na Sauber, definitivamente poderíamos conviver com um sistema onde a confiança vem em primeiro lugar”, assevera.

O presidente da FIA, Jean Todt, também é defensor da introdução de um teto orçamentário, mas diz que tem “mais ou menos zero influência sobre os custos” devido à existência do Grupo de Estratégia. O francês considera ridícula a proposta feita pelas grandes equipes. “Sabemos que os orçamentos estão entre US$ 100 milhões e US$ 400 milhões. A proposta com que eles parecem ficar felizes é de um corte de US$ 2 milhões. Quando falamos de custos, temos que falar em reduzir de 30% a 40%. Aí poderemos nos sentir confortáveis.”

Se algo tiver de ser definido de forma pacífica já para 2015, terá de ser feito até o dia 30 de junho, que é a data-limite determinada pela FIA para a aprovação das linhas gerais do regulamento. A partir disso, propostas que surgirem deverão ser aprovadas de forma unânime.

O resultado é que até agora, como ironiza o chefe da Red Bull, Christian Horner, foram cortados “mais ou menos € 10 mil” – nada perto do que a F1 realmente precisa neste momento.

Proposta defendida por Ferrari e Red Bull nos últimos encontros é que a venda de chassis possa voltar a acontecer, como já foi no passado. São times que têm interesse em repassar seus equipamentos a terceiros, e que argumentam que tal procedimento facilitaria a entrada de novas escuderias que não precisariam fazer enormes investimentos em pesquisa e desenvolvimento e construção de peças: poderiam focar apenas em correr.

A rejeição é grande. A Williams acredita que tal permissão foge ao DNA da F1, e a Mercedes, representada por Wolff, ressalta que existe o Mundial de Pilotos e o Mundial de Construtores – essa proposta só deve ser considerada caso a categoria perca times e precise encontrar formas de engordar os grids.

Como é praxe na F1, não vai ser nada fácil encontrar um consenso. Ninguém quer ceder, e os pensamentos são bastante distintos ao longo do pit-lane. Marco Mattiacci, o novo chefe da Ferrari, deixa claro que não quer ver nada sendo nivelado por baixo. “Provavelmente, vamos precisar estar todos alinhados para dar um passo produtivo e concreto. Tendo dito que creio que podemos fazer mais, tendo sempre em mente que a F1 tem que produzir a melhor tecnologia e entretenimento, e isso está claro para todos os representantes aqui presentes. Mas, definitivamente, estamos dando alguns passos positivos nessa direção [de reduzir gastos].”

É uma novela que deve se arrastar por mais alguns meses – e que não necessariamente vai terminar em 2014.
 

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