Grandes Entrevistas: Eric Granado

“Para mim não faz sentido mudar de categoria enquanto eu não estiver andando na frente na categoria anterior. Infelizmente eu fiz isso em 2012 e foi acho que o maior erro da minha vida”

JULIANA TESSER e EVELYN GUIMARÃES, de Termas de Río Hondo
Único brasileiro no Mundial de Motovelocidade, Eric Granado construiu a carreira correndo na Europa (Foto: Felipe Tesser)
Único brasileiro no Mundial de Motovelocidade, Eric Granado defende a bandeira de um esporte praticamente esquecido no país do futebol. Sem categorias de base para se desenvolver dentro de casa, o jovem piloto precisou seguir para a Espanha em um busca de uma oportunidade.

Mesmo contra todas as possibilidades, Eric conseguiu chegar ao Mundial de Motovelocidade, mas não antes de se tornar o primeiro brasileiro a pontuar no Campeonato Espanhol de Velocidade (CEV) – com um quinto lugar na etapa de Jerez de la Frontera de 2011 –, maior centro de formação de pilotos da atualidade.

Ao conversar sobre a carreira com a reportagem da REVISTA WARM UP, Granado destaca como a ida para o Velho Continente foi fundamental para que a carreira pudesse engrenar. Lá, enfrentou pilotos e conheceu uma realidade que permitiram sua formação como piloto — parte dela, pelo menos. Junto da turma da Moto3, ele segue estudando para tirar seu diploma no motociclismo e correr atrás do sonho.

“É difícil isso. Eu comecei a correr no Brasil porque o meu pai criou uma categoria com quatro pilotos. Muito jovem, com dez anos, eu fui correr na Espanha e, na verdade, eu me criei lá. Desde 2006, corro o Campeonato Espanhol e os campeonatos nacionais da Europa, então acho que isso foi fundamental para mim. Se eu não tivesse ido para lá, com certeza eu não estaria no Mundial, porque no Brasil a gente não tem categorias.”

Em carreira solo como defensor das cores do Brasil no Mundial de Motovelocidade, Eric foi mais um a comemorar um acordo entre a Dorna, promotora do campeonato, e o governo do Distrito Federal, que previa levar a competição para o Autódromo de Brasília ainda em 2014.

Construído na década de 70 e sem grandes cuidados desde então, o circuito brasiliense está bem longe das condições ideais e necessita de uma grande reforma antes de poder receber as motos do campeonato mundial. Com grandes falhas de planejamento, a prometida obra ainda não saiu do papel, o que acabou cancelando o GP do Brasil, previsto para setembro.

Esperançoso de que o retorno ao país ajude a fomentar o esporte, Granado reconhece que o cancelamento da prova causou desapontamento, mas também admite que já esperava por isso.

“Eu fiquei bem desapontado, mas eu acho que já era uma coisa que... Especulavam que iam cancelar a prova, mas eu estava torcendo para que não fosse verdade. Mas, infelizmente, acabou cancelando. Eu acho até melhor, talvez, cancelar e fazer direito no ano que vem, do que fazer uma coisa, no português claro, meia boca. Eu prefiro que a prova vá para o Brasil e que o Mundial seja muito bem recebido, em um circuito com estrutura, o que, no momento, a gente não tem. Então acho que, se o Mundial for o ano que vem para o Brasil, com certeza vai ter uma estrutura legal e eu espero estar bem melhor e, se possível, ganhar uma corrida no Brasil.”

Aliás, não é só a presença do Brasil no calendário que Eric considera benéfica. A existência do GP da Argentina, ali do lado, também deixa o Mundial mais próximo do público brasileiro.

“Acho que o fato de o Mundial ir para a América do Sul é realmente positivo, não só para a Argentina, mas indo para o Brasil. Assim a gente está mais perto e faz com que os jovens e as pessoas que organizam isso façam algo para poder criar uma categoria de base para os jovens pilotos começarem no Brasil.”
Vaga na Aspar foi um recomeço para o brasileiro, que desembarcou no Mundial correndo na Moto2. (Foto: Keith Rizzo)
Enquanto o GP do Brasil não sai do papel e o esporte vive tempos de vacas magras por aqui, Granado vai continuar tentando fazer acontecer no Mundial de Motovelocidade. E sem queimar etapas. Ele mesmo admite que queimou uma, em 2012, quando estreou no certame direto na Moto2. Um erro — o maior da vida.

Apesar disso, Granado acredita que a idade ainda é um trunfo que o permite recuar um passo para depois dar outros dois à frente. Por ora, a ideia é ficar na Moto3 e aprender. Quando sentir que estiver pronto e, principalmente, tiver resultados que o credenciem para isso é que vai tentar voltar a subir na escada do motociclismo.

“Eu fui para a Moto2 muito jovem. Não foi a decisão correta, mas eu tive sorte de que eu era bem jovem, então acho que serviu de experiência e de forma alguma vai atrapalhar na minha carreira, porque já passou e ano passado eu dei a volta por cima, voltei a andar, fiz pontos no Mundial. Óbvio que tive muitos erros, mas acho que por ter sido no começo da minha carreira, não vai influenciar em nada agora e a minha vida está muito melhor agora na Moto3. Estou sendo muito mais competitivo e, por mais que este ano seja um ano um pouco tumultuado, a gente sabe onde pode estar e a capacidade que eu tenho de andar brigando na frente.”

Sem resultados expressivos na divisão intermediária, Granado encerrou seu vínculo com a JiR e ganhou uma nova chance, desta vez com o time de Jorge Martínez, a Aspar. O recomeço aconteceu em 2013, quando o piloto, então com 16 anos, fez sua estreia na Moto3.

A decisão de seguir direto para a Moto2, entretanto, não foi fruto da pressa, mas, sim, das opções que lhe foram oferecidas: não haviam propostas para que ele estreasse na classe inicial.

“Não, não. Na época, em 2011, eu terminei em quinto no Campeonato Espanhol, foi um resultado muito bom, mas eu não tinha nenhuma proposta para ir para a Moto3 e isso foi um ponto também que fez eu tomar essa decisão pela Moto2. Eu tinha uma proposta muito boa na Moto2, um contrato de três anos, que eu podia ter tempo para evoluir, mas, realmente, eu era muito jovem, eu tinha 15 anos e já subi em uma moto de 600cc, e foi um pouco loucura, mas eu acho que tudo a gente aprende e eu usei esse ano de 2012 para conhecer algumas pistas do Mundial, ver como que é o mundo da MotoGP, e 2013 já foi bem melhor do que 2012.”

Com menos experiência que muitos de seus rivais, Granado não está tendo vida fácil na categoria de entrada do Mundial, mas aproveitou o ano de estreia para somar seus primeiros pontos, com um nono lugar conquistado no GP da Itália, em Mugello.

“Ano passado foi um ano de muitos altos e baixos. Eu tive corridas em que eu estava andando na frente e acabei caindo. Aquelas corridas em que eu me classifiquei bem e na corrida não tinha ritmo. Acho que consegui tirar proveito de tudo que aprendi no ano passado para neste ano saber no que eu preciso melhorar. Neste ano, desde a pré-temporada, eu já fui aplicando o que aprendi no ano passado e os resultados foram surgindo. Acho que o ano passado foi um ano em que eu aprendi bastante. Eu definiria como um ano de altos e baixos. Eu tive boas provas, bons classificatórios, mas, no final, acabei não fazendo um final de semana completo. Tirando o de Mugello, que foi um grande final de semana, mas, mesmo assim, eu acabei tendo duas quedas em Mugello no ano passado, então foi um ano em que eu aprendi muito. Por eu ser jovem, também, acho que erro bastante e estou aprendendo a lidar com esses erros e contornar a situação melhor do que no ano passado.”

As mudanças na carreira, no entanto, não ficaram restritas à troca de categoria. Com quase tudo certo para permanecer na Aspar em 2014, um conflito entre seus patrocinadores pessoais – Mobil e Red Bull – e os apoiadores da equipe – Bel Ray e Drive M7, empresas de lubrificantes e energéticos, respectivamente – resultaram em uma nova alteração de rota.

Para manter seus patrocinadores de longa data – e sem prejudicar a relação com o dono da Aspar –, Granado foi para a LaGlisse, equipe campeã com Maverick Viñales em 2013, quase como um jogador de futebol que é emprestado para uma equipe rival.

“É, pode-se dizer assim, mas acho que a minha relação com ele é muito boa. Eu converso com ele a cada corrida, peço dicas e a gente sempre tem contato. Não só porque os meus mecânicos e todo o pessoal que trabalha comigo são da Aspar, então eles tem a relação com a Aspar ainda. Eu converso com ele sempre, tenho muita intimidade para pedir dicas e conselhos. As portas estão abertas para eu poder voltar lá quando houver a possibilidade. Mas vou dizer que eu estou muito contente de estar na equipe que eu estou. Vou fazer este ano e ano que vem a gente vê o que vai acontecer.”
“Se eu não tivesse ido para lá, com certeza eu não estaria no Mundial, porque no Brasil a gente não tem categorias”
Além de manter os mesmos mecânicos da Aspar, Eric também segue em contato com outro integrante do time: Nico Terol. Campeão das 125cc em 2011, o espanhol é companheiro de Granado nos treinos e no dia a dia na Espanha.

“Eu moro na cidade que ele mora na Espanha. Eu estou, digamos, instalado lá, porque voltar para o Brasil é uma loucura, as viagens são muito cansativas. As corridas são quase todas na Europa, então eu fico por lá, treino com o Terol, me preparo com ele. A gente mora a duas ruas um do outro, então eu o vejo quase todo dia na academia, saímos para andar de bicicleta, treinar na rua, correr de moto... Acho que é muito importante ter um cara como esse por perto, para se preparar junto comigo, porque é uma referência que... pô, é um campeão mundial, né?”

A troca de equipe, por outro lado, resultou em uma mudança de equipamento. O piloto de São Paulo deixou para trás a Kalex-KTM da Aspar e assumiu uma KTM do time dirigido por Pablo Nieto, filho do também ex-piloto Ángel Nieto.

“A gente tinha tudo para continuar com a Aspar, mas por alguns motivos aí, acabei mudando de equipe, mas estou me sentindo em casa, como se estivesse na Aspar, porque trouxe os meus mecânicos junto comigo, meu telemétrico, meu chefe de mecânicos. Eu estou me sentindo muito bem. A moto realmente é muito boa. Estou com um pessoal muito competente, que são campeões mundiais do ano passado, então acho que isso é muito bom. Estar em uma equipe campeã, que tem uma experiência muito boa no Mundial.”

A chegada à LaGlisse também rendeu ao brasileiro novos companheiros: o tcheco Jakub Kornfeil e o espanhol Isaac Viñales, primo do campeão de 2013 da Moto3.

“Eles são realmente muito bons. Eles me surpreenderam. Os dois estão andando sempre na frente, muito rápidos, e acho que isso é positivo para mim também. Com pilotos que vão rápido em uma mesma equipe, eu tenho uma boa referência. A cada treino a gente acaba trocando informações e vendo o que a gente pode melhorar, e isso é muito bom. Assim a equipe também cresce, evolui junto.”
Agora na LaGlisse, Granado defende a equipe que foi campeã com Maverick Viñales em 2013 (Foto: LaGlisse)
De novo em uma ótima equipe, Granado tem metas bem definidas para a temporada que está em curso: “A minha meta é tentar, óbvio, melhorar os resultados do ano passado. Com certeza a gente vai conseguir fazer isso. Eu acho que o começo já foi positivo. Eu acabei não terminando bem as corridas, mas os treinos e as preparações para a temporada foram muito boas. O objetivo é tentar acabar entre os dez primeiros cada corrida e, a partir daí, planejar um outro objetivo, mas primeiro é tentar melhorar o que eu fiz no ano passado e a partir daí traçar uma nova meta.”

Com um ano de experiência na Moto3, o piloto da moto #57 aproveitou a pré-temporada para se preparar melhor, tanto no aspecto físico como no psicológico.

“Nesta temporada, eu me preparei muito mais fisicamente, perdi um pouco de peso — o que também faz a diferença nesta categoria. E, com certeza, o psicológico faz a diferença. Se você tiver bem mentalmente, decidido no que você quer fazer, você vai muito mais fluído, muito mais solto na moto. Faz muita diferença. Eu notei muito isso e o bom é estar forte psicologicamente. Para mim, eu estou muito forte neste aspecto e agora é só tentar arrematar na corrida e terminar cada corrida no lugar que eu mereço.”

Completadas as cinco primeiras provas da temporada, o piloto da LaGlisse avalia que deu um passo à frente em relação ao ano passado, mas faltou um pouco de sorte. Neste início de Mundial, Eric teve quatro quedas, três delas provocadas por adversários.

“Uma coisa que eu te garanto é que faltou sorte. Mas acho que agora a fase ruim já passou. Na pré-temporada eu estava indo muito bem, todo mundo viu que eu estava andando entre os dez, os 15 primeiros, que é o lugar onde a gente tem condições de estar, mas, infelizmente, eu tive algumas quedas. Uma por minha culpa, a maioria delas porque me derrubaram também. Infelizmente, isso acabou me atrapalhando bastante. Acabei perdendo um pouquinho o foco que eu estava no começo do ano, mas acho que agora, depois dessas três semanas, depois do GP de Jerez, que eu estive no Brasil me recuperando, recuperando a energia, acho que eu estou com outra cabeça para Mugello, mais tranquilo, melhor preparado fisicamente. Por mais que eu não tenha treinado muito por culpa do dedo [fraturado em um acidente na Espanha], eu treinei bastante e acho que, se a dor me permitir, vou conseguir ter um grande resultado este final de semana. Espero que o dedo não seja um problema, porque na França realmente estava muito, muito difícil.”

Em seu segundo ano na Moto3, Eric foge de planos de longo prazo e, humilde, tenta procura aprender com o erro que cometeu para acertar nas próximas vezes em que tiver de tomar decisões a respeito de seu futuro.

“É difícil dizer. Nesse mundo do motociclismo, a categoria que eu corro agora depende muito de resultado, então acho que depende muito do que eu vou fazer neste ano. Se eu conseguir grandes resultados e estiver em um lugar que eu possa merecer subir para a Moto2, e eu tiver a oportunidade, eu vou subir, mas eu não quero cometer o mesmo erro de 2012, de ir para uma categoria que eu não estava preparado. Eu só vou subir para a Moto2 se ver que estou preparado e estiver andando na frente na Moto3. Para mim não faz sentido mudar de categoria enquanto não estiver andando na frente na categoria anterior. Infelizmente eu fiz isso em 2012 e foi acho que o maior erro da minha vida.”
 

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