Stop & Go: Daniil Kvyat

“Seja Button, Vettel ou Alonso, ninguém tem superpoderes e todos podem ser batidos. Todos podem cometer erros banais”

RENAN DO COUTO, de Barcelona
Com menos de 20 anos, Daniil Kvyat pulou etapas para chegar à F1 e alega que não precisou delas. (Foto: Peter J Fox/Getty Images)
Foi com enorme surpresa que quem acompanha a F1 recebeu a notícia de que Daniil Kvyat seria o sucessor de Daniel Ricciardo na Toro Rosso em 2014. Eram poucos os que imaginavam que o russo, então apenas um jovem do Red Bull Junior Team que brigava pelo título da GP3, seria promovido à categoria máxima do automobilismo com apenas 19 anos.

Kvyat furou a fila, pulou a GP2 e guiou pela primeira vez nos treinos livres pela primeira vez nos GPs dos EUA e do Brasil de 2013. De cara, deixou uma boa impressão, mas foi no GP da Austrália deste ano, com um décimo lugar e o primeiro ponto da carreira, que ele começou a mostrar a que veio. Foi preciso muito pouco tempo para que ele passasse a ser considerado um potencial campeão da F1.

Com 20 anos recém-completados, Kvyat mostra uma fala firme e decidida ao conversar com a REVISTA WARM UP em inglês – com um marcante sotaque de russo que é. Ele conta que olhava meio deslumbrado para outros campeões do grid da F1, mas que já está costumado, diz que é preciso fazer sacrifícios para se manter no plantel da equipe que conquistou os últimos quatro títulos mundiais e afirma que não acredita em superpoderes: é trabalhando duro que se conquista o que quer.


REVISTA WARM UP: Daniil, você teve um começo um tanto impressionante de temporada. Foi campeão da GP3, mas não passou pela GP2 para chegar à F1. Sente que esse passo realmente não fez falta?

Daniil Kvyat: Bem, no passado, andando na GP3, virei 1min34s0. Hoje, 1min28s0. Diferença de seis segundos...

Então você não precisou mesmo da GP2 para ficar pronto para a F1?

Não. Eu acho que se você precisa provar algo para alguém, a GP2 é uma boa categoria. Há alguns pilotos velhos, que estão fazendo cinco anos de GP2, o que é absolutamente insano, sem sentido. Como um novato, você precisa chegar e vencer de cara, como eu fiz na GP3, e aí abre a porta. Foi o que fiz na GP3 e foi o bastante.

Esse começo de temporada é o que você esperava?

Eu não estabeleço grandes metas para mim. Tenho feito o meu máximo, e isso foi suficiente para eu terminar em nono, décimo. Acho que estou indo em na direção correta.
Kvyat entrega resultados e mantém bom relacionamento com o olheiro da Red Bull, Helmut Marko. Porque do contrário... (Foto: Julian Finney/Getty Images)
E a idade? Você tem apenas 19 anos. Como é ser tão jovem e correr entre campeões e tantos outros pilotos mais experientes?

No começo, foi bem interessante. Button, Vettel, Alonso em volta... Às vezes, no começo, você pensa ‘estou no meio dos caras que já vi tanto’, mas agora eu vejo que todos são humanos, ninguém tem superpoderes e todos podem ser batidos. Todos podem cometer erros banais. Essa é a sensação.

Ninguém tem superpoderes ou você tem superpoderes?

Eu espero. Mas eu acredito no trabalho duro, e qualquer consequência tem uma ação atrás. O que você faz para conquistar alguma coisa é muito importante, mais importante do que a própria coisa.

Depois de Sebastian Vettel, a Red Bull passou algum tempo sem promover ninguém do Red Bull Junior Team para a equipe principal. Agora Daniel Ricciardo subiu e você chegou bem na F1. O que você diz sobre os resultados do programa de pilotos?

Em primeiro lugar, é uma grande oportunidade para qualquer piloto. Entrar para o Junior Team já é uma enorme conquista. A partir dali, a meta não devem ser só conquistas, você tem que perceber que precisa trabalhar duro, esforçar-se muito, até mesmo sacrificar tempo da sua vida pessoal. Acaba sendo normal, porque tudo isso à nossa volta já é a minha vida pessoal. Isso ajuda. Se você entrega resultados e é bom o bastante, eles vão te dar a chance de chegar aqui. E se chegar, ainda não acabou, absolutamente. Mais uma vez, é trabalho ainda mais duro e mais profissional. É o que tento fazer.

Sabemos que Helmut Marko costuma ser bastante duro com os pilotos do Red Bull Junior Team e mesmo da F1. Como é sua relação com ele?

Eu diria que é um bom relacionamento. Ele sempre cobra muito de você, mas enquanto você entrega o que ele quer, mostra resultados, ele percebe que você tem potencial, pois no programa só há pilotos com grande potencial. Se você perceber isso, vai ter um bom relacionamento com ele. Eu tenho. Podemos conversar sobre muitas coisas, sempre conto a ele tudo o que penso, e ele é sempre bem direto no que diz para você. Acho que é a abordagem correta.

Você não é o primeiro russo na F1, mas você acha que o seu desempenho pode ser um impulso para o automobilismo na Rússia?

Vitaly Petrov foi o primeiro piloto da Rússia, e eu acho teve uma carreira interessante, mas não deu todos os passos. Mas ele não deixa de ser um piloto com grande potencial, pôde mostrar isso, mas não era muito consistente e provavelmente foi por isso que não conseguiu ficar aqui muito tempo. Acho que se tentasse de novo, ficaria por muito mais tempo, pois é um piloto muito talentoso.

Nunca dá para saber, mas se tudo caminhar na direção certa, tudo acontecer do jeito certo, eu fizer acontecer nos momentos certos e na hora certa, eu definitivamente posso ficar aqui por mais tempo.
 

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