Superfinal: Guidão umbilical

Os irmãos Aleix e Pol Espargaró revelam uma cumplicidade única e admitem que não gostam de correr um contra o outro na MotoGP

JULIANA TESSER e EVELYN GUIMARÃES, de Termas de Río Hondo
A disputa entre os irmãos é vista como um privilégio por dividirem o grid mais importante do mundo das duas rodas. (Arte: Bruno Mantovani)
Melhores amigos, irmãos, fã um do outro. Aleix e Pol Espargaró certamente protagonizam um capítulo a parte na história de familiares que dividem o mesmo grid no esporte a motor. Os dois espanhóis certamente têm uma das relações de cumplicidade mais tocantes das competições, e isso se revelou de forma ainda mais intensa na temporada de 2013 do Mundial de Motovelocidade, quando o caçula Pol disputou e venceu o título da Moto2. Atualmente, os dois estão no ponto mais alto de suas carreiras e compartilham o grid na MotoGP. Mas a relação continua rigorosamente a mesma.

Ao longo de suas vidas no Mundial, ambos nunca deixaram de demonstrar carinho público, torcida mesmo, às vezes até desesperada. Sempre juntos, mesmo quando corriam em categorias diferentes, eram vistos nos boxes um do outro, ali ao lado, ao pé do ouvido, como se pudessem sair e andar no lugar do irmão, a fim de poupá-lo na tensão.

A experiência de correr um contra o outro não vem de hoje. Em 2006, ambos disputaram juntos a 125cc, hoje Moto3, e, em 2011, competiram na então recém-criada Moto2. A história dos dois caminhou por rumos diferentes, contudo. Com uma das carreiras mais meteóricas do Mundial, o mais experiente dos irmãos queimou etapas, sofreu com a inexperiência e, apesar de não ter nenhum título nas categorias de acesso, é bastante respeitado por seus pares.

Aos 20 anos, Aleix estreou na MotoGP em 2009, em Indianápolis, substituindo Mika Kallio na Pramac, a satélite da Ducati. Disputou apenas quatro provas naquela temporada. No ano seguinte, o catalão teve a chance de correr o ano todo com a moto italiana, mas os resultados não o garantiram para 2011, ano em que precisou voltar à Moto2 — categoria em que ajudou no desenvolvimento da moto.

Aí surgiu a oportunidade na Aspar, já dentro das regras CRT, em 2012. O piloto não desperdiçou a oportunidade e foi o melhor do novo regulamento por dois anos seguidos. O desempenho colocou seu nome nos holofotes e permitiu o contrato com a Forward para esta temporada.
Sempre sorridentes, os irmãos Aleix e Pol Spargaró possuem uma relação muito próxima. (Foto: Getty Images)
Mesmo ‘separados’, a rotina de apoio incondicional se seguiu ao longo dos anos; a cumplicidade na mesma garagem, também. É quase como se fossem uma única pessoa, as semelhanças físicas, a voz, também ajudam para a confusão. Mas quem assume uma postura mais paternal é mesmo Aleix. Dono de uma personalidade descontraída, amorosa e protetora, o mais velho dos dois simplesmente não consegue esconder a admiração e o cuidado extremo que tem com o caçula. É a quase a voz da consciência de Pol.

Mesmo atarefado também com sua própria carreira, o catalão de Granollers dedica um enorme tempo ao irmão. Aos 24 anos, o piloto treina junto, nunca poupou torcida e mensagens de apoio a Pol durante a trajetória até o título do ano passado na categoria intermediária do Mundial. Com frequência, Aleix surgia no pit, no momento da largada, orientando o irmão, pedindo calma. Pol retribuía sempre com um aceno e belas corridas.

Aleix admite que todo nervosismo por causa do irmão se refletia quando subia em sua moto na categoria principal. “Eu estava muito preocupado no ano passado. Foi tudo muito tenso. Realmente, eu ficava nervoso quando ele estava correndo. Então, quando subia na minha moto, eu não estava tão relaxado. Mas também curtia muito ao vê-lo correr, vencer as provas e, claro, quando foi campeão”, explica Aleix à REVISTA WARM UP no paddock da pista argentina de Termas de Río Hondo.

Em 2014, os dois voltaram a dividir um mesmo grid. Agora, a responsabilidade é bem maior, afinal a classe rainha exige muito mais trabalho e dedicação. Os dois estão sob o guarda-chuva da Yamaha. Aleix por meio da Forward, do regulamento Aberto, enquanto Pol defende a satélite Tech3.

O mais novo dos irmãos teve uma carreira melhor planejada, sem mudanças bruscas de categoria. Estreou no Mundial em 2006, nas 125cc e ficou por lá durante cinco temporadas, terminando 2010 em terceiro, seu melhor resultado. No ano seguinte, passou para a Moto2. O título veio no ano passado e, com ele, a chance na equipe de Hervé Poncharal.

“Aqui a coisa é bem diferente”, diz Aleix. “Às vezes, como aconteceu no Catar, quando vi que ele sofreu um acidente durante os testes, eu fiquei bastante nervoso. Foi difícil. Mas, agora, cada um de nós tem um trabalho a fazer. Posso dizer que é um pouco menos tenso”, admite.

Pol, entretanto, conta uma versão diferente. O também catalão de 22 anos revela que, na verdade, não lhe agrada competir contra o irmão e que a recíproca parece ser a mesma. “Eu não gosto muito de correr contra ele”, fala à RWUp. “Afinal, ele é meu irmão e carrega um tanto de mim nisso tudo. Mas este é o nosso trabalho. Aqui nós somos dois profissionais, somos pilotos e muito competitivos. Temos de fazer o nosso trabalho, temos de ultrapassar e tentar ser o mais rápido possível na pista. Não é fácil. A gente se diverte muito, claro, mas não é fácil”, destaca.
“Eu não gosto muito de correr contra ele”
– Pol Spargaró, o caçula
Quando surge uma ultrapassagem, então, a dificuldade é grande. “É uma sensação diferente. Não sei explicar muito bem, mas é diferente. Por exemplo, a gente tem outro tipo de respeito com os demais pilotos, mas com ele é diferente. Eu sempre penso: não quero prejudicá-lo ou fazê-lo ir muito ao limite. Não é a mesma coisa, isso eu posso dizer. Eu realmente não gosto. É isso”, completa.

A princípio, mesmo depois do nervosismo do ano passado, Aleix estava contente de andar novamente com o irmão. O entusiasmo durou muito pouco. “Aconteceu uma coisa engraçada neste ano”, conta Pol, às gargalhadas. “No início, ele estava todo empolgado porque iríamos correr novamente juntos, não parava de falar nisso, fazia planos. Mas, agora, depois de algumas provas, ele já veio me falar: ‘Não é nada bom isso aqui. Nada bom’. Eu o entendo. Ele está sempre ao meu lado, é algo que não posso nem descrever. Imagino que também seja muito difícil para ele também. Tanto quanto é para mim. Mas também é uma sorte correr contra ele, contra alguém como ele”, acrescenta.

Questionado pela RWUp se sente falta de ver o irmão nos pits a cada largada, Pol foi categórico. “Sim, muito. Ele sempre me apoiou, esteve ao meu lado nos momentos mais complicados, sabia como dizer as coisas. Eu sinto, mas também estou muito contente por estarmos ambos na MotoGP agora. Somos muito privilegiados por tudo isso aqui”, afirma.

Aleix vai pelo mesmo caminho e também se diz privilegiado. “Quando as coisas vão bem, por exemplo, quando começou a temporada, tudo é mais fácil. Mas quando você está em apuros, tem problemas, o apoio da minha família é fundamental”, declara. “É muito importante tê-lo aqui. É um privilégio. É muito bom e só posso dizer que tenho sorte de poder ter esse tipo de apoio”, completa.

Enquanto Aleix terminava de conversar com a reportagem da RWUp, no paddock de Termas, Pol galhofava atrás do irmão. “É só para desconcentrá-lo. Ele odeia.”
Curiosidades fraternas

A última que vez que dois irmãos competiram juntos na MotoGP foi em 2010, na pista de Laguna Seca. Nicky Hayden (Ducati) e Roger Lee Hayden, que substituía Randy de Puniet na LCR Honda, compartilharam o grid. Ambos terminaram aquela corrida nos pontos.

A última vez que dois irmãos competiram em uma temporada inteira da classe rainha foi em 2004, quando Kenny Roberts defendeu a Suzuki, enquanto Kurtis correu com a Proton KR.

A última vez que dois irmãos dividiram o pódio na principal categoria foi em Ímola, em 1997, quando Nobuatsu Aoki foi segundo e Takuma Aoki, terceiro.
 

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