Edição 51
Junho/2014

Carro-chefe: A nova fórmula

Enquanto Bernie Ecclestone não curte a ideia de abraçar as redes sociais, o mundo da F1 compartilha que a entrada no mundo da internet é necessária é urgente

EVELYN GUIMARÃES, de Spielberg
“A F1 não precisa das redes sociais”. A seca frase é de Bernie Ecclestone, o todo poderoso chefe e presidente da FOM, a Formula One Management, empresa que detém os direitos comerciais e de imagem da principal categoria do automobilismo no mundo. Fazendo valer a franqueza que lhe é peculiar, o dirigente inglês falou no início do mês sobre a postura do Mundial frente às crescentes inovações do mundo digital e sua abrangência, e realmente não acredita que o mais importante campeonato de monopostos do planeta precise mesmo mudar sua abordagem ou a forma de interagir com o público — mesmo que seja para atrair novos e mais jovens fãs.

Não é nenhuma surpresa, evidentemente. Ecclestone vê tudo de um ponto de vista puramente comercial. Por isso, acha que um investimento mais agressivo nas redes sociais não é neste momento algo necessário, dada a enorme exposição do Mundial na TV, jornais, revistas e sites, e que uma incursão neste mundo seria apenas se encontrasse “alguém que pague por isso”. Para o veterano, as atuais plataformas são passageiras. “Até os especialistas em mídias sociais acham que não é algo tão bom quanto imaginavam”, justifica. A relutância já causa pequenas discussões de bastidores.

A declaração causou estranheza e críticas de todos os lados, especialmente porque a F1 vive um período em que as discussões sobre mudanças ganham corpo a cada final de semana de corrida. As pessoas que fazem parte do show não se mostram satisfeitas com o cenário atual, procuram inovações em todas as áreas, e os fãs estão cada vez mais exigentes. Daí a busca incessante por tornar as provas mais atraentes. Mas será que é suficiente?

Apenas alterações de formato e mudanças drásticas de regulamento ainda parecem não agradar aos torcedores. Os ‘consumidores’ do produto F1 querem mais, querem saber tudo o que acontece nos bastidores, querem a imagem do Instagram do paddock, querem saber a opinião da própria categoria e a visão que têm sobre o campeonato. Ao menos essa é a visão de alguns dirigentes da categoria.
Equipes já utilizam as redes sociais como plataforma de relacionamento com naturalidade. Aqui, Mercedes homenageia Schumacher (Foto: Mercedes)
"Todos nós sabemos que agora todo mundo passa a vida em celulares, iPods, iPads, Facebook, Twitter, então acho temos de colocar um pouco do nosso mundo nessas plataformas também. A F1 precisa disso. Acho que é uma boa forma de se conquistar os mais jovens e formar novos torcedores. A F1 é sinônimo de tecnologia de ponta e precisamos usar isso a nosso favor”, diz Max Chilton, que defende a pequena Marussia. Ele não é único que pensa dessa forma.

A reflexão do inglês de 23 anos foi abordada também pelos principais chefes de equipe do Mundial durante o GP da Áustria. Embora não achem que Ecclestone tenha realmente uma posição contra o investimento em redes sociais, concordam que a categoria precisa melhorar a forma como trabalha com o mundo digital. E isso precisa ser urgente. Para os comandantes, a mudança de postura é tão importante quanto se pensar nas alterações nas regras e medidas para se reduzir os custos, por exemplo.

Para um efeito rápido de comparação, a F1 não possui perfil no Facebook, mas tem uma conta no Twitter, rede social que até hoje é considerada uma das mais inovadoras. Lá, o campeonato possui somente 241 mil seguidores, mas sem seguir nenhum outro perfil. Pilotos como Fernando Alonso e Lewis Hamilton já bateram a marca de 2 milhões de seguidores e são os dois competidores mais populares do grid nas redes sociais. E ambos são bastante ativos.

A MotoGP, que é o campeonato equivalente ao da F1 nas duas rodas, está perto de atingir a marca de 1 milhão de seguidores (são precisamente 972 mil atualmente) no microblog. E segue pouco mais de 400 usuários. A Indy tem números mais modestos, mas nem por isso deixa de ser expressiva a conduta da categoria no universo digital.

A série norte-americana possui perfil no Twitter, Facebook, Instagram e YouTube. No microblog, são 122 mil ‘followers’, sendo que acompanha mais 1.082 perfis. Além disso, os responsáveis pelas contas são bastante ativos, narrando em tempo real, treinos e corridas. Também oferecem uma grande quantidade de informações diárias e interagem o tempo todo com o público, especialmente nos finais de semana de prova.

"Não penso que Ecclestone seja contra. Sabemos que a F1 tem levado um tempo para entrar nas mídias sociais. Afinal, não se pode ignorá-las, é um fato da vida", decreta Monisha Kaltenborn, a mulher que comanda a Sauber.

A opinião da dirigente é completada pela de Christian Horner, chefe da Red Bull. “Acho que, acima de tudo, a F1 é um espetáculo. E precisa entreter. Precisamos dar ao público também mais acesso, mais informações dos bastidores e envolvê-los mais no que fazemos", emendou. “E as mídias sociais são um bom caminho, sem dúvida”, falou o inglês, quando perguntado pela REVISTA WARM UP.

“A Red Bull é extremamente atuante nessa área”, continua. "Temos um engajamento com os fãs, temos mais de 8 milhões de seguidores em todo mundo por meio das diversas mídias sociais. E só vemos isso crescer”, completa. “Quer dizer, é algo que precisamos fazer como um todo.”
“A internet, as mídias sociais, como queiram, são fundamentais”
– Marco Mattiacci, chefe da Ferrari
Equipe mais tradicional do grid da F1, a Ferrari segue a mesma linha dos rivais. Vindo do mundo dos negócios da marca italiana nos Estados Unidos, Marco Mattiacci, o novo chefe da esquadra vermelha, também enxerga o mundo digital como um campo que precisa ser urgentemente explorado de forma mais eficiente pela maior das categorias. Para ele, ainda há muito que se fazer.

"É algo que pode ser feito, sim", fala. "Nós temos uma tradição, temos mais de mil fã-clubes em todo o mundo, que estão crescendo a cada dia. Além disso, temos vivido uma grande experiência digital. Temos quase 12 milhões de pessoas no Facebook. Mas eu acho que ainda há muito que ser feito também pelas equipes. Precisamos trabalhar juntos em uma sinergia que provavelmente vai nos ajudar a vender este produto de forma mais eficiente", acrescenta.

"Eu penso que os jovens fãs passam muito tempo na internet, então acho que temos de criar um bom ambiente para essas pessoas, até mesmo do ponto de vista da marca. A internet, as mídias sociais, como queiram, são fundamentais e temos de trabalhar em cima disso. É realmente importante", explica o italiano.

Emendando o discurso quanto à melhor maneira de interagir com os fãs, Monisha entende ainda que uma das formas para se atrair o público é usar melhor a internet nos finais de semana de corrida. "Eu acho que poderíamos fazer mais, particularmente, em um fim de semana de corrida. As equipes menores poderiam se reunir com os times de ponta e promover ações. É uma forma simples de interagir com o público", sugere.

Neste ponto, Mattiacci defende uma estratégia mais abrangente, que de fato promova o envolvimento dos fãs com o mundo da F1. A categoria, segundo o executivo, não pode deixar de levar em consideração que é também uma forma de espetáculo e precisa de algum apelo. "Eu busco ter uma visão mais ampla sobre como melhorar a F1 e o apelo. Se dependesse apenas de mim, eu gostaria de ver um envolvimento muito mais profundo, mais amplo. Investir em uma interação maior entre público e pilotos, por exemplo. Algo que vá além da experiência que temos no momento", afirma Mattiacci.

"A F1 é sinônimo de inovação, mas também é entretenimento e acho que temos uma grande oportunidade aqui para tornar esse produto atrativo, melhorar e envolver mais o público com o mundo da F1", acrescenta.

Outro que vê nas redes sociais um ambiente perfeito para a interação e a promoção da F1 de maneira global é Toto Wolff, o diretor da Mercedes, a equipe que domina atualmente o campeonato. "As redes sociais estão crescendo de forma exponencial conosco", revela o austríaco.

"Em dias bons, temos mais 50 mil novos seguidores no Facebook. Estamos quase do tamanho do público da fábrica da Mercedes, e isso mostra que as pessoas transitam em todas as plataformas", explica. "Em termos de ação, a Mercedes lançou recentemente uma campanha global em torno da F1. Isso, claro, promove muito a equipe, mas também a F1", completa.
 

Exemplos de fora e concorrência acirrada

Mesmo caminhando na vanguarda da tecnologia, a F1 ainda tem muito que aprender com outros esportes. E a valorização do público é um item em que a categoria precisa melhorar ainda mais, segundo o chefe da Ferrari. Mattiacci vê possibilidades em todas as áreas. Para o executivo, é importante a F1 olhar todas as oportunidades a aproveitá-las, além de se espelhar em outros esportes.

"O mundo digital muda a cada dia", diz o italiano. "Todos os dias há uma nova oportunidade. Definitivamente, é importante também termos uma estratégia ou um modelo de negócios para envolver o público, principalmente o mais jovem, que é um tipo de audiência mais ampla. Você precisa saber o canal que vai usar e como usá-lo. Você pode utilizar o Twitter, o Facebook, o Google, todos os tipos de mídia. Não é difícil", explica.

"Mas é preciso fazer de forma equilibrada e bem pensada, porque isso aqui é uma arena muito competitiva, onde outros campeonatos, como NBA, a NFL e a Champions League, fazem um trabalho excepcional", acrescenta Marco, que possui grande experiência no mercado norte-americano no tempo em que trabalhou como CEO da Ferrari nos EUA.

O líder ferrarista, então, ressalta que, apesar de essencial, a F1 também precisa saber como lidar com as redes sociais. "Nós precisamos não apenas dizer ‘OK, vamos abraçar as novas mídias’, mas também precisamos de uma estratégia de marketing muito clara sobre isso para termos a certeza de que estamos atingindo as partes interessadas e que elas terão um retorno de tudo isso. Portanto, é algo que requer tempo", fala.

"É exercício sério e acho que já começamos esse processo. Estou extremamente confiante de que estamos nesta jornada no caminho certo", completa.

Wolff concorda com o italiano. Perguntado pela WUp, o chefe da Mercedes também entende que trazer os fãs para perto é o melhor caminho. "Há muitas possibilidades. Temos de explorar tudo, na internet, na mídia. Devemos procurar todas as oportunidades", afirma.

De fato, a F1 parece ir na contramão de sua essência ao resistir aos avanços das tecnologias de comunicação. E não poderá esperar mais para, enfim, entrar de forma plena na era digital.
 

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