Edição 51
Junho/2014

Estepe: American idol

Ryan Hunter-Reay foi o primeiro norte-americano a vencer as 500 Milhas de Indianápolis em oito anos, num desfecho emocionante de prova, marcado por uma intensa disputa com Helio Castroneves. Foi o resultado necessário para alavancar o patriotismo da torcida

EVELYN GUIMARÃES, de Indianápolis
Arte: Rodrigo Berton
Há oito anos Indianápolis não via um norte-americano cruzar a linha de chegada na frente depois de 500 Milhas. A última vez havia sido com Sam Hornish Jr., em 2006, ainda a bordo de um carro da Penske. Coube, então, a Ryan Hunter-Reay quebrar a intrigante sequência de estrangeiros dos últimos anos para finalmente colocar o rosto em um dos mais famosos troféus do mundo. Também o fato de ser um piloto da casa “tirou um peso dos ombros” do texano de 33 anos, que ganhou as manchetes e a vibração de uma torcida que lotou as arquibancadas do Speedway no último dia 25 de maio. No Victory Lane, era bem difícil ouvi-lo em meio aos gritos e os aplausos dos fãs. Como de costume, a semana de Hunter-Reay no pós-triunfo foi cheia, e a expressão ‘a win for a american boy’ povoou o noticiário esportivo nos EUA em meio às finais da NBA.

A corrida, é bem verdade, começou morna, sem dizer muito a que veio, e só ganhou vida mesmo da metade para frente. O desfecho foi eletrizante, marcado pela frieza e pela estratégia de seus principais protagonistas. Ambos, curiosamente, guiando carros amarelos.

Hunter-Reay ainda não havia engolido a derrota para Tony Kanaan no ano anterior e, de novo, muito bem posicionado na parte final se viu em condições de enfim vencer a mais importante das corridas da Indy. Só que o adversário a ser batido era o sempre favorito Helio Castroneves — e não seria fácil. Como num bom roteiro hollywoodiano, ainda houve uma bandeira vermelha a dez voltas do fim, que serviu apenas para tornar os giros derradeiros ainda mais dramáticos. No retorno, RHR sabia que tinha de guardar o melhor para o fim. Sabia que era preciso surpreender para tornar real o sonho de criança. Dito e feito.

Depois de uma arrojada ultrapassagem na penúltima volta em Castroneves, o campeão de 2012 recebeu a bandeirada com somente 0s060 de vantagem para o brasileiro – a segunda menor margem da história da Indy 500. “Isso aqui é tudo aquilo que sonhei desde que era um menino”, diz Hunter-Reay aos jornalistas após descer do carro em Indianápolis, onde a REVISTA WARM UP acompanhou de perto da edição 2014 das 500 Milhas.
Cruzar o Yard of Bricks após a 200ª volta das 500 Milhas de Indianápolis foi o momento mais glorioso da carreira de Ryan Hunter-Reay (Foto: Beto Issa)
“O título vem bem depois disso aqui. Essa vitória é provavelmente o topo da minha carreira. É incrível. Eu não consigo acreditar. No ano passado, tudo esteve tão perto. Perder para o Tony Kanaan doeu muito, acho que ainda dói, para ser sincero. Eu assisti tantas vezes aquela corrida, eu vi um milhão de vezes todos os movimentos dele no fim, revi tudo o que ele fez e como venceu. Isso é que é corrida”, salienta. “É um orgulho vencer aqui diante dessa torcida, de ser americano, tira um peso das costas também.”

E questionado pela RWUp se a vitória ajuda na busca da Indy por maior popularidade nos EUA, Hunter-Reay concorda e acha que vencer diante de tamanha competitividade da categoria em um terreno internacional “apenas o enche de orgulho”.

A verdade é que Hunter-Reay difere de seus pares. O menino nascido em Dallas nunca quis correr em outra categoria justamente por causa da Indy 500. Era onde queria estar desde que foi apresentado ao campeonato pelo pai, ainda garoto. Ficou fascinado pela história dos Andretti, Unser, Foyt, Mears. E foram eles que ajudaram a moldar a sua história. “Eu tenho muito orgulho dessa corrida, por mais de um motivo. É por causa de norte-americanos como eles, é por conta da história desse lugar e das pessoas que venceram aqui. Eu sempre quis fazer parte disso e acho que agora chegou a minha vez. Era o meu dia”, vibra.

No caminho do piloto mais bem-sucedido da Andretti nunca houve um atalho ou uma rota alternativa que não fosse a Indy. “Para mim, sempre foi a Indy”, afirmou. “Eu vim crescendo no kart, sempre acompanhado a categoria. Sempre foi uma rua de mão única. Nunca houve outro caminho”, falou Hunter-Reay, que estreou na Indy em 2007, pela Rahal Letterman. Antes, foram três temporadas na Champ Car, entre os anos de 2003 e 2005. E algumas participações nas competições do antigo Grand-Am, hoje United Sportscar.

Mas a chance na Andretti surgiu apenas em 2010. De lá pra cá, foram 11 vitórias e um título, em 2012, defendo o time chefiado por Michael Andretti. “Eu cresci como um verdadeiro fã desse esporte, dessa pista e dessas pessoas. Meu pai me levou às corridas e eu fiquei fascinado por tudo isso, especialmente por essa prova. É a maior corrida do mundo, é uma das mais antigas. Eu sempre quis estar aqui. Só de tentar correr aqui já é uma conquista. Vencer aqui, no lugar onde tantos outros ícones do automobilismo norte-americano também venceram, é inacreditável”, acrescenta.

Neste ponto, Hunter-Reay lembra que ser americano em uma competição como a Indy é ainda mais difícil e que o triunfo diz muito sobre a história dos competidores ianques em Indianápolis. A pressão por resultados é grande e a concorrência é acirrada. O piloto ainda exalta o processo de internacionalização da categoria.

“Sendo americano, eu acho que, talvez, se você olhar pelo lado da Nascar, não é uma grande coisa, porque todos são americanos lá. Mas isso aqui é um esporte internacional, é uma categoria de monopostos. E nós corremos em todos os tipos de pista, ovais curtos, circuitos de rua, mistos. Somos o único campeonato no mundo que faz isso. A Indy é verdadeiramente o maior campeonato de pilotos que há, e é isso que mais amo aqui. Portanto, vencer aqui é especial e muda toda a sua vida”, crava.

Vencendo os melhores

Chefe e dono da equipe que leva o nome de sua família na Indy, Michael Andretti não chegou a estacionar, enquanto piloto, seu carro no Victory Lane em Indianápolis. Essa é a maior frustração da sua carreira no automobilismo. Mas alcançar esse sucesso como proprietário pela terceira vez em 2014 serve como uma pequena consolação para o campeão da temporada 1991. E, ao falar do principal competidor do seu time, Michael é só elogios. Ele vê em Ryan Hunter-Reay o piloto perfeito: “Anda bem em todos os tipos de circuito. E isso faz grande diferença.” Mas vencer a Indy 500 já o coloca em uma “posição totalmente diferente”.

“Ele é tudo aquilo que esperamos que fosse. E o nosso relacionamento está melhor que nunca. Somos realmente muito próximos. Uma família. E espero que ele fique em nossa família até o dia em que pensar em deixar de correr”, declara, sentado ao lado de RHR após o grande triunfo nas 500 Milhas — já marcando território e deixando claro para todos que não pretende permitir que o texano um dia pilote para uma equipe rival.

Andretti também faz questão de ressaltar como é importante o sucesso dos pilotos norte-americanos na Indy. “Correr e vencer contra os melhores do mundo, não só nos EUA, é incrível. Por isso, fico tão feliz e é ainda mais importante para mim quando um americano vence aqui, porque estamos em um campeonato internacional. E isso nos enche de orgulho”, completa.
 

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