Edição 51
Junho/2014

Superfinal: Na garupa do chefe

‘Mr. MotoGP’, Carmelo Ezpeleta coloca o Brasil no radar da principal categoria do motociclismo e revela um ambicioso plano para desenvolver jovens pilotos brasileiros junto com Alex Barros

JULIANA TESSER e EVELYN GUIMARÃES, de Termas de Río Hondo
Arte: Bruno Mantovani
O Mundial de Motovelocidade é um senhor de 65 anos de idade. Ao longo deste tempo, muita coisa mudou na categoria que deu suas primeiras voltas na Ilha de Man em 1949. Nestas mais de seis décadas, montadoras chegaram e partiram, pilotos surgiram e desapareceram, e novos países colocaram seus circuitos à disposição para receber os melhores pilotos de moto do planeta.

Desde 1992 no comando do campeonato, a Dorna acompanhou de perto este desenvolvimento e hoje, além de trabalhar para manter a qualidade da competição, a mais antiga do esporte a motor mundial, também luta para reduzir os custos, aumentar a competitividade e globalizar ainda mais o esporte.

Diretor-executivo da Dorna, Carmelo Ezpeleta é quem conduz este trabalho. Ao contrário do que sua posição possa indicar, o dirigente é um homem acessível que pára para receber a reportagem da REVISTA WARM UP em uma das salas do Autódromo de Termas de Río Hondo, em Santiago del Estero, na Argentina.

Durante cerca de 15 minutos, o dirigente máximo da MotoGP falou sobre seus planos para o futuro da categoria, fez uma avaliação do atual formato do Mundial, comentou a respeito de Valentino Rossi e Marc Márquez e não escondeu sua decepção com o cancelamento do GP do Brasil, que estava previsto para retornar ao calendário em 2014.

No comando das mais de 300 pessoas que viajam com a categoria para todas as partes do mundo, Ezpeleta tem nas mãos um campeonato que busca novos mercados, mas que ainda é extremamente popular no Velho Continente.
Ezpeleta garantiu que o Brasil terá vaga no calendário da MotoGP em 2015 se tiver um autódromo homologado (Foto: Mirco Lazzari/Getty Images)
Ciente da importância do mercado sul-americano e, especialmente, da paixão dos brasileiros pelo esporte a motor, Ezpeleta coloca o Brasil nos planos da MotoGP, porém ressalta que não basta o interesse da categoria: é preciso que o país tenha um circuito que atenda aos rigorosos padrões de segurança da FIM (Federação Internacional de Motociclismo). Atualmente, isso não existe.

“A América do Sul é um continente muito importante, que está crescendo no momento, e o Brasil é um mercado muito importante e tem uma grande tradição no esporte a motor”, diz Ezpeleta. “As pessoas no Brasil entendem muito de esporte a motor”, frisa.

A importância do mercado nacional de motocicletas resultou em um acordo com o governo do Distrito Federal, que se comprometeu a reformar o Autódromo de Brasília para receber o Mundial ainda neste ano. Entretanto, meses após o anúncio do acordo, o DF reconheceu que não teria tempo hábil para concluir o trabalho, mas segue sustentando a promessa a preparar a pista para 2015. Até agora, a reforma está apenas no papel.

“O circuito não está pronto. Teoricamente, eles tinham que ter começado o trabalho. O trabalho não começou, então eles decidiram adiar para o próximo ano”, comenta. Questionado se o Brasil tem um lugar certo no calendário do próximo ano caso a prometida reforma fique pronta, o dirigente é claro: “Sim, sim”.

Por ora, as tratativas se dão exclusivamente com a capital federal, mas o interesse em voltar ao Brasil faz com que fique de olhos abertos para alternativas. Ele não descarta conversar com outros estados caso as obras no Autódromo Nelson Piquet não saiam do lugar: “No momento nós temos um acordo com Brasília. No caso de a reforma não acontecer, tem outros estados interessados, mas, no momento, nós estamos conversando com Brasília.”

Goiás, por exemplo, é um estado que não esconde a vontade de levar a MotoGP de volta a Goiânia. Indagado, Ezpeleta sorri e desconversa com uma resposta evasiva: “Estamos conversando com Brasília.”

Ainda no assunto calendário, o chefe da Dorna explica que a chegada do Brasil não acarretará na saída de alguma das atuais 18 etapas, mas também assegura que o Mundial não passará de 20 provas.

“Nós estamos interessados em ter o máximo de continentes possível. Desenvolvimento em termos globais é muito interessante. No momento, se o Brasil entrar no próximo ano, será o 19º GP. Se tiver outro, nós temos algumas demandas, vamos chegar em 20. E aí, a partir de 2016, talvez um desses 16 países não continue”, reforçou.
Enquanto regulamento da MotoGP ainda passa por ajustes, Ezpeleta se mostrou satisfeito com as categoriais iniciais do Mundial (Foto: Bridgestone)
Ezpeleta deixa claro que está sempre aberto para receber propostas de novas praças desde que elas obedeçam a um critério: a existência de um circuito que tenha condições de abrigar o Mundial. “Para fazermos a MotoGP, nós temos de ter uma pista. Uma pista homologada. Nós não podemos correr na rua ou onde quer que seja. Então qualquer lugar com interesse em receber a MotoGP em uma pista adequada. Isso é o mais importante. A questão principal é ter uma pista homologada”, observa.

As mudanças na elite do Mundial, por sua vez, não ficam restritas apenas ao calendário. No próximo ano, a Suzuki já confirmou que voltará à MotoGP, mas Ezpeleta garante que não será com uma nova entrada, uma vez que as vagas já estão completas.

“Achamos que o número ideal é 22 e agora nós temos 23, mas o nosso número ideal é 22”, destaca, mesmo acreditando que a volta do time agora chefiado por Davide Brivio vai despertar o interesse de outros fabricantes. “É possível. Eles viram claramente que os custos não são ilimitados. Estou convencido de que outras fábricas vão chegar.”

O caminho até os custos limitados, no entanto, foi bastante longo e precisou de muito jogo de cintura para que as fábricas aceitassem as propostas feitas pela Dorna. E ainda há mais a ser feito, já que a meta estabelecida pela empresa não foi alcançada. “Cada passo que estamos dando é para reduzir os custos e aumentar o espetáculo. Sim, estamos no caminho, mas ainda não terminamos. Vamos terminar em 2016, quando todos vão usar a mesma ECU e o novo regulamento vai permitir que mais motos andem em um mesmo nível”, explica.
A negociação

Maior referência do motociclismo brasileiro, Alex Barros conversou com a WARM UP e contou que não são recentes as conversas com Carmelo Ezpeleta para criar uma categoria de formação de pilotos no país. O brasileiro, no entanto, afirma que ainda falta muito para que esse projeto se torne realidade.

“Desde que eu deixei o Mundial, o Carmelo vem me pedindo para eu ajudar no Brasil a desenvolver pilotos brasileiros”, conta. “A Alex Barros Racing tem dentro da equipe um projeto para a garotada. Um projeto de se tornar maior do que isso está em discussão, mas ainda falta muita coisa para ser encaminhado. Está muito cru ainda”, explica.

O projeto é focado no Brasil, mas aberto a pilotos dos outros países da América do Sul. “O que o Carmelo precisa, principalmente hoje, é de pilotos brasileiros e argentinos”, ressalta. Ainda não há uma previsão para que o projeto conjunto com a Dorna seja colocado em prática.
 
Se a MotoGP ainda precisa de acertos, o mesmo não acontece com as categorias menores, que rotineiramente oferecem um show de primeira qualidade. “Nós estamos satisfeitos. Nós acertamos regras muito boas com os fabricantes, com a FIM e com a IRTA [Associação das Equipes] para essas duas categorias quando mudamos primeiro de 250cc para Moto2, e aí de 125cc para Moto3, e acho que, depois de alguns acertos no regulamento, nós estamos no caminho”, avalia o diretor-executivo da Dorna.

Além dos custos e da globalização do esporte, Ezpeleta acredita que é necessário ter pilotos de todos os continentes no grid. O que se vê nos últimos anos, entretanto, é a Espanha dominando todas as categorias.

“A Federação na Espanha investiu muito em novos talentos, mas isso não vale só para os espanhóis”, apontou Carmelo. “O Campeonato Espanhol de Velocidade no ano passado foi organizado pela Federação Espanhola e agora está sob o comando da FIM. Este ano, no CEV da FIM, nós temos 44 pilotos participando na Moto3 e 81% não são espanhóis”, ressalta.

“O campeão do ano passado no Campeonato Espanhol foi Fabio Quartararo, que é francês. Quando você tem um campeonato muito grande, ele vai interessar a todos”, defende. “Muitos anos atrás, e este foi o caso de Ayrton Senna e todos os outros, pessoas de todas as nacionalidades que queriam ser populares nos carros tinham que passar pela F3 na Inglaterra. Nós tentamos fazer algo similar”, compara.

O CEV, contudo, não pode acomodar todos os pilotos e foi pensando nisso que foi criada a Asia Talent Cup, categoria destinada à formação de jovens de países como Catar, Indonésia, China, Malásia, Tailândia, Filipinas e Japão. O torneio, que estreou neste ano, é mais um que conta com o suporte da Dorna e da FIM e é liderado por Alberto Puig, o homem por trás da formação de Dani Pedrosa e Casey Stoner.

O plano agora é estender esse programa para o Brasil. Mas, ao invés de Puig, quem vai tomar conta é o principal expoente da motovelocidade no país, Alex Barros.

“Nós estamos pensando em fazer isso. Este é o nosso próximo passo”, anuncia. “Nós estamos conversando bastante com o Alex. Nós temos conversado muito sobre como desenvolver essa possibilidade. Nós temos algumas ideias e achamos que é possível fazer algo deste tipo.”

Na visão de Carmelo, embora o Brasil tenha uma boa audiência, é preciso fomentar os talentos daqui. “É muito importante, mas também é importante ter pilotos brasileiros. Se os pilotos brasileiros forem bem sucedidos, isso é muito importante para a audiência”, avaliou.

A presença de Eric Granado, segundo Ezpeleta, já impactou positivamente na audiência, porém o dirigente crê que o futuro do brasileiro tende a ser mais promissor na categoria intermediária.

“Eu acho que o Granado é muito pesado para a Moto3. Eu entendo que seja um passo, mas acho que quando ele terminar com a Moto3 e passar para a Moto2, por ter terminado seu entendimento da moto e campeonato, a minha sensação, só pela minha sensação, é que ele será mais bem sucedido na Moto2 do que é agora na Moto3, porque o peso dele está atrapalhando um pouco”, considera.

Ezpeleta também responde com um taxativo “sim” ao ser questionado se existe espaço para as mulheres na motovelocidade, avaliando que elas também podem chegar à divisão principal. “Acho que este esporte é para meninas que estão fisicamente bem preparadas, como Ana Carrasco, María Herrera. Elas estão indo muito bem”, elogia. “O problema é que há menos mulheres, então há menos mulheres para serem bem sucedidas, mas por que não? Este esporte aceita homens e mulheres.”
Diretor-executivo da Dorna revelou a ideia de criar no Brasil algo similar à Asia Talent Cup (Foto: Divulgação)

Ícones do esporte

Falar em MotoGP é praticamente a mesma coisa que falar em Valentino Rossi. Um dos maiores ícones do motociclismo atual, o piloto italiano teve um papel de destaque na popularização do esporte. Carismático, o multicampeão extrapolou o universo das pistas e sua irreverência se tornou conhecida até mesmo por aqueles que não são muito ligados na motovelocidade.

Chefe da Dorna, Ezpeleta reconhece a importância do piloto que viu crescer dentro do campeonato que comanda, mas, sem esquecer dos demais ícones do esporte, avalia que Rossi se tornou conhecido por sua habilidade na pista, não apenas por seu jeito cativante.

“Não há dúvida de que Valentino é um dos ícones da história”, admite. “O que acontece é que agora o motociclismo é mais popular, os heróis do motociclismo são mais populares, mas [Mick] Doohan também foi muito importante, antes dele o Kenny [Roberts], Ago [Giacomo Agostini], e outras pessoas. É normal. Cada era tem seu herói.”

“Agora parece que será o Marc [Márquez], mas tem outras pessoas. Todos são importantes. O primeiro ponto é que Valentino é muito bom, porque, antes de mais nada, ele é um piloto muito bom. Se ele é um showman ou não, é diferente, mas o mais importante é que ele é um piloto muito bom. E tem um grande número de pilotos muito bons na MotoGP”, analisa. “Você vê agora que, entre os que estão participando da MotoGP, há muitos campeões mundiais de diferentes categorias. Isso nunca aconteceu no passado”, salienta.

Dos 23 pilotos do grid, 11 conquistaram títulos em ao menos uma das três categorias do Mundial – Valentino Rossi (9), Jorge Lorenzo (4), Dani Pedrosa (3), Marc Márquez (3), Álvaro Bautista, Pol Espargaró, Andrea Dovizioso, Hiroshi Aoyama, Stefan Bradl, Mike di Meglio e Nicky Hayden (1) – um total de 26 taças.

Questionado se Márquez pode assumir esse papel desempenhado por Rossi ao longo dos últimos anos, Ezpeleta diz que não sabe, mas tornou a mencionar que o mais importante é ter pilotos de várias nacionalidades. “Para ser honesto, eu não sei, mas Márquez, Pedrosa, Lorenzo, Bradl ou qualquer outro, estão aqui para tentarem ser campeões mundiais e para tentarem vencer corridas. Como eles fazem isso e o quão populares são é outra coisa”, comenta. “Minha preocupação é ter muitas pessoas, de muitas nacionalidades, correndo no topo da MotoGP. Se eles são populares ou não, talvez um seja mais popular, mas este não é nosso problema principal”, finaliza.
 

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