Edição 52
Julho/2014

Estepe: Agora é que são elas

A participação de Susie Wolff em um treino da F1 foi um acontecimento extraordinário, mas que não aconteceu por acaso: a chegada da escocesa à categoria é fruto de um processo que tende a permitir que uma mulher finalmente volte a alinhar no grid do Mundial

PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
EVELYN GUIMARÃES, de Hockenheim
 
Quando ganhou a chance de acelerar o carro da Williams em Silverstone durante o fim de semana do GP da Inglaterra, Susie Wolff quebrou um paradigma: desde as tentativas falhas de Giovanna Amati em 1992, as mulheres estiveram de fora do cockpit em todos os eventos oficiais da F1. No entanto, não apenas Susie está ali: a escocesa é produto de um ambiente que se cria na categoria pelos últimos anos. As mulheres ganham espaço em progressão geométrica e de forma inegável. Monisha Kaltenborn e Claire Williams dão as ordens no paddock nos times fundados por Peter Sauber e Frank Williams, respectivamente. E já que chegaram ao poder, agora falta às mulheres o retorno definitivo às pistas do Mundial.

A história delas na F1 não é inexistente, sejamos justos. Antes de Amati no volante da Brabham, os cinco finais de semana e três largadas de Maria Teresa de Filippis – com Maserati e depois Behra-Porsche em 1958 e 1959 – e os 17 fins de semana e 12 largadas de Lella Lombardi – com March, RAM e Williams entre 1974 a 1976 – resumiam a história relevante do universo feminino aos volantes da categoria. Aliás, numa dessas 12 largadas de Lella, a do GP da Espanha de 1975, a italiana faturou a única pontuação feminina na F1, 0,5 ponto. Aquele GP, último no circuito de rua de Montjuïc, em Barcelona, foi interrompido no meio, após o aerofólio do carro de Rolf Stommelen se soltar do carro e voar em direção ao público, matando cinco pessoas. Menos de dois terços da prova tinham sido percorridos antes do acidente, fazendo com que todos recebessem metade dos pontos.

Outras mulheres chegaram a participar de treinos oficiais, mas Divina Galica, Desiré Wilson e a própria Giovanna capitularam após nunca conseguirem se classificar para um GP. Mais recentemente, em 2012, María de Villota chegou a ser pilota reserva da Marussia, porém um acidente num teste acabou encerrando a carreira da espanhola e causando sua morte precoce mais de um ano depois. Nos anos 2000, Sarah Fisher e Katherine Legge testaram por McLaren e Minardi, respectivamente. A experiência não passou de um único teste em ambas as oportunidades.

Susie estreou sem muito brilho. As expectativas por seu debute sob as lentes de um evento oficial duraram quatro voltas, até um problema de pressão no motor do FW36 terminou sua sessão. Duas semanas depois, em Hockenheim, a escocesa conseguiu sentir o gosto por mais tempo. Foram 22 voltas e o 15º lugar na sessão. Com passagens sem muito protagonismo pela F-Renault e F3 no Reino Unido, e pelo DTM, Susie ainda batalha contra um certo olhar de desconfiança por suas credenciais e, claro, por ser casada com Toto Wolff, acionista minoritário da Williams e diretor-executivo da Mercedes.
Com problemas de motor, Susie Wolff não conseguiu andar mais do que quatro voltas em Silverstone. (Foto: Williams F1)
"Houve uma grande comoção em Silverstone porque seria algo histórico, mas, para mim, ações falam mais que mil palavras. Já me perguntaram tantas vezes se sou boa o suficiente, se as mulheres são boas o suficiente... Para mim, quando coloco o capacete e saio para a pista, não sou diferente de ninguém e tento mostrar isso", diz em entrevista acompanhada pela REVISTA WARM UP no paddock do palco do GP da Alemanha. "Eu perdi aquela chance de andar em Silverstone com toda a comoção, por isso era importante andar em Hockenheim e deixar a vida seguir. Eu me sinto pronta, mas, como sabemos, o ambiente na F1 é duro.”

Obter uma nova chance não será fácil, a própria Susie admite. “Mas eu já dei definitivamente o maior passo nessa minha jornada. No começo da minha carreira, obviamente, eu não estava pronta para esse tipo de oportunidade, mas tudo que fiz depois foi para me preparar o melhor possível para ter essa grande chance. Por isso, o que tenho de fazer agora é o melhor trabalho possível”, fala. “Nunca se sabe quando uma oportunidade pode aparecer. E se surgir, você precisa estar pronta. Isso aqui sempre foi o meu sonho e sinto-me orgulhosa do que consegui na minha carreira", completa.

A Wolff das pistas analisa que a F1 está passando por um grande impacto. “Temos a Claire no comando da Williams; a Monisha e a Simona [de Silvestro], na Sauber; e eu. Então, as mulheres estão ocupando diversos cargos nas equipes e penso que isso está acontecendo de uma forma correta. Elas são conquistando o espaço pelo trabalho. E isso só tende a aumentar", crê.

Sua chefe, Claire, compartilha da mesma opinião. "Gosto de pensar que sim”, ressalta. “Claro que a aparição de Susie em Silverstone foi curta, mas ela foi a primeira mulher no cockpit num evento oficial em 22 anos. Acho que isso definiu um padrão na F1”, avalia em coletiva em que a RWUp esteve presente. “Seria ótimo ver mais mulheres chegando ao esporte com capacidade de pilotar, e creio que ela age como um modelo nesse sentido. Susie fez um ótimo trabalho para o time e, no fim do dia, para nós, isso foi o mais importante.”

A perspectiva atual vai além de Susie, no entanto. Com a Haas garantida no grid para 2016, o dono Gene Haas olha para suas próprias garagens na Nascar e encontra Danica Patrick. Ele mesmo já disse que a moça, primeira mulher a vencer uma prova da Indy e a fazer pole na Nascar, é uma opção. Danica respondeu que ouve, mas que, aos 32 anos, talvez esteja ficando "velha demais para uma nova carreira”.

A possibilidade mais próxima do paddock da F1 — e mais real — é Simona de Silvestro. No início do ano, a suíça assinou com a Sauber para ser pilota-afiliada. Assim, já testou modelos antigos da equipe e procura tirar a superlicença nos próximos meses. Num time que tem Adrian Sutil e Esteban Gutiérrez como dupla, sem que nenhum deles impressione, não fica difícil calcular que, em condições normais de temperatura e pressão, Simona pode se tornar titular em pouco tempo.

Os passos têm sido dados dentro dos planos. "Posso dizer que a preparação dela tem sido muito boa. Tudo tem saído dentro do esperado”, diz Monisha à WUp. “Ela fez o primeiro teste com um carro de F1 em Fiorano e foi muito bem. Depois, ela foi para Valência, onde apresentou uma performance sólida, de fato. Foi muito bom, mesmo”, sublinha. “Ela percorreu uma quilometragem expressiva, e isso também provou que ela está fisicamente muito bem. Além disso, ela não teve nenhum incidente durante os testes, o que foi bastante expressivo.”

A dirigente avalia que Simona “tem absolutamente todos os ingredientes”. “É por isso que estamos também trabalhando com ela, investindo em sua carreira. E vamos apoiá-la na obtenção da superlicença – é claro que ainda é provisória. O próximo passo é tentar colocá-la para pilotar o carro deste ano. Acho que ela vai estar preparada. Mas precisamos ver como as coisas evoluem e o acontece no futuro em relação aos nossos planos", seguiu a chefe.

Monisha vê valor em ter jovens como Simona. “É igualmente importante que a gente encoraje as meninas a entrar no esporte. E nós já vemos muitas meninas de diferentes países chegando. Mas é preciso investir mais na base do esporte", completa.

Não se trata apenas da F1, mas também dos arredores. Michela Cerruti, 27, vai assumir uma das vagas da Trulli, na nova categoria badalada da FIA, a F-E. Katherine Legge também estará nos quadros da categoria de monopostos elétricos pela Aguri. Olhando para a GP3, dá para encontrar a espanhola Carmem Jordá, que já passou por F3 e Indy Lights. Beitske Visser é mais um nome, uma promessa de 19 anos que faz sua primeira temporada na World Series.

"Eu sempre observo as meninas nas categorias menores. É claro que não tenho tanto tempo para acompanhar o quanto gostaria, por causa do meu próprio trabalho. Mas eu sei exatamente onde estão e o que estão passando”, revela Susie. “Todos os e-mails e todas as mensagens que eu recebo – e são muitas –, eu respondo a todas. Eu tento passar um pouco da minha trajetória, da minha experiência, contar os erros que eu cometi. E um dos grandes problemas – e que afeta a todos nesse esporte – é a questão do patrocínio”, destaca. “Elas também precisam trabalhar em cima disso e eu tento aconselhar também. É encorajador ver o número de meninas", garante.
Simona di Silvestro é apontada como provável titular da Sauber em 2015. (Foto: Sauber)

Quem é que sobe

Aos 21 anos, Tatiana Calderón é outro expoente da nova geração feminina. Colombiana, campeã de kart, Tatiana já participou de corridas na Star Mazda, na Toyota Racing Series e na F3 Inglesa, e está em seu segundo ano em uma das categorias que a F1 mais olha para buscar jovens talentos, a F3 Europeia. Olhando para oportunidades futuras, a pilota reconhece que ainda há um longo caminho pela frente para que a categoria máxima seja uma realidade.

"Estou muito feliz de ver mulheres ganhando chance na F1. Acho que nós merecemos mais e mais, porque simplesmente não há razão pela qual não possamos ser tão competitivas quanto os homens”, fala uma esperançosa Tatiana à RWUp. “Devagar, mas com segurança, estamos tentando construir nosso caminho para o topo do esporte, e isso provavelmente é um dos melhores momentos para as mulheres no automobilismo. Mas sei que ainda tem mais por vir”, diz. O primeiro passo é conseguir as chances, segundo a sul-americana. “Então temos de mostrar que podemos nos estabelecer e conseguir nosso lugar.”

A F1 a motiva. “É a razão pela qual eu me mudei dos Estados Unidos para a Europa”, explica. “Não é fácil atingir isso, claro, mas estou disposta ao desafio e trabalhando duro para melhorar todos os dias de cada maneira possível, tanto na minha técnica, fisicamente e mentalmente. Atualmente, estou numa categoria muito competitiva, a F3 Europeia, que eu considero a mais forte fórmula para jovens, e meus resultados, embora não sejam ainda o que eu desejo, estão melhorando a cada fim de semana”, admite. “Agora já marquei pontos e estou me aproximando dos primeiros. Acredito que, se quero chegar no topo da minha profissão, tenho de mostrar primeiro na categoria de base mais competitiva que estou preparada para aproveitar a oportunidade quando ela chegar, assim como qualquer piloto homem."

O bom momento feminino no automobilismo, embora pareça promissor, ainda precisa se concretizar. Fato é que a presença delas é cada vez maior nos cockpits e nos paddocks. E é difícil encontrar um cenário em que essa participação maior e maior das mulheres seja ruim. Se o automobilismo é visto como um mundo à parte, muitas vezes longe da realidade econômica, temporal e mesmo física, a quebra da barreira do sexismo pode matar mitos como, por exemplo, o de que mulheres não podem guiar. O dia de Susie não marcou o início de algo. Mas foi simbólico de que algo está em curso, tal qual um passo na Lua em uma corrida espacial.

É um pequeno passo para as mulheres. Um grande passo para o automobilismo.
 

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