Edição 52
Julho/2014

Grandes Entrevistas: Felipe Massa

“Existem muitas críticas em tudo. Se você for olhar, até o Ayrton Senna sofreu. A nossa mentalidade não é a correta. O Brasil é um país onde é muito fácil criticar”

EVELYN GUIMARÃES, de Hungaroring
Foto: Williams F1
Felipe Massa, 33, atingiu em 2014 a expressiva marca de 200 GPs na F1. Antes dele, apenas 14 pilotos na história do Mundial haviam alcançado tal feito. E foi na etapa da Inglaterra que o brasileiro celebrou “mais esse ponto” da carreira, rodeado pelos membros da Williams, pelo chefe Frank, personalidades importantes do paddock e de times rivais, ex-companheiros de equipe, como Fernando Alonso e Kimi Räikkönen, amigos e a família. Felipe tem uma trajetória rica nos 12 anos de vivência no paddock, marcada por dramas – como o acidente que quase o matou em 2009 –, por controvérsias – tipo a corrida da Alemanha de 2010 – e por uma das disputas mais eletrizantes de título que a F1 já acompanhou em 64 anos de história.

Bem-humorado e tranquilo, Massa conversou com a REVISTA WARM UP em uma tarde de quinta-feira da quente Budapeste, lugar que o piloto diz “amar” e ter enorme carinho pelas pessoas – muito, claro, em decorrência do drama que viveu cinco anos atrás. O papo, que era para durar dez minutos, se estendeu por quase 15 – interrompidos por Rob Smedley, que precisou trocar uma ideia rápida com o piloto.

A entrevista no motorhome do time inglês refletiu bem a nova fase que Felipe vive na F1 e começou explorando a grande vivência que o brasileiro possui no Mundial. Ele não vê os 200 GPs recém-festejados como algo excepcional, uma façanha. Na verdade, é comedido e realista: procura enfatizar a experiência de vida que a carreira que escolheu para si lhe proporciona e analisa tudo de forma serena. Felipe fala com orgulho do respeito e da admiração que conquistou no paddock difícil, competitivo e pouco amistoso do Mundial.

“É mais uma marca na sua carreira”, afirma Massa sobre o número de corridas já disputadas na maior das categorias.

“É uma marca que mostra onde você conseguiu chegar, de onde você conseguiu passar. É mais um ponto na sua carreira. Lógico, é sempre bacana, mas o mais legal é você ver as pessoas que estavam presentes naquele momento, muitas pessoas querendo te abraçar, querendo estar ao seu lado, pessoas com quem você trabalhou junto em outras equipes. Então eu acho que isso mostra que é um prazer e que tenho uma relação muito forte e muito boa com muita gente nesse paddock. Independente de ser um lugar súper competitivo, é um lugar onde eu tenho uma grande importância, uma ótima relação com muitas pessoas e um grande respeito. Isso, claro, sempre te dá mais prazer.

Mas lógico que não é o número 100 ou 200 que te dá esse prazer. A gente está aqui pelo resultado e por brigar por vitórias. Mas foi mais uma parte, um ponto da minha carreira.”
Felipe celebrou em Silverstone, com a equipe e com a família, seu 200º GP na F1. (Foto: Williams F1)
Felipe entende que aprendeu muito e teve de crescer rápido demais, mas que sua história é “uma experiência de vida gigante, por conseguir ser um piloto de F1 por muito tempo”.

“Eu já passei por momentos importantes e interessantes, e aprendi muito com os momentos bons e também com os ruins – até porque, principalmente, sendo brasileiro, para você ser um piloto de F1, precisa sair muito cedo de casa. Às vezes, você sai de casa e vai morar em um país em que você não sabe a língua, não conhece nada, e precisa aprender tudo do zero. É uma experiência de vida única.”

A opção por buscar o Mundial nunca é fácil, segundo Massa, e cobra um preço alto. “Se você pegar um piloto de F1 aí com 21 ou 22 anos, parece que é muito mais velho daquilo que realmente é porque teve de aprender tudo antes e muitas coisas nessa vida”, explica.

A extrema competitividade talvez seja a maior das características da F1. Portanto, para conseguir fazer parte desse mundo também é preciso compreendê-lo e saber em quem confiar. É uma das lições mais importantes. De acordo com Felipe, esse aprendizado precoce ajuda a sobreviver e a interpretar o que se passa ao seu redor e a conhecer as pessoas. “Aqui é igual ao mundo”, resume.

“É claro que aqui, você, sendo um piloto, passa por momentos difíceis e de dificuldades, não só no meio de uma corrida, mas fora também. Você acaba tendo um aprendizado da vida mais cedo e das pessoas, e tem de entender como funciona esse mundo. E acaba reconhecendo quem é a pessoa para confiar. Também porque talvez você tenha confiado em uma pessoa e não deu o resultado que você esperava.

A gente acaba aprendendo as coisas antes do tempo mesmo, e isso também vale para tudo... É essa coisa da confiança, de como é esse mundo, de como funciona, quem é seu amigo realmente e quem não é, quem gosta de você e quem não gosta, quem tem apenas interesse em você e não na amizade. Isso faz parte do aprendizado. ”
“Temos grandes possibilidades não só para agora, mas também daqui até o final da minha carreira com a Williams”
Ainda falando sobre o ambiente da F1 e toda a experiência adquirida, a RWUp pergunta a Felipe se há como fazer amigos em um meio tão competitivo e complicado. Sim, com ressalvas.

“Tem como fazer amizade na F1. Não é fácil, mas eu tenho amigos entre os pilotos. Não é fácil porque cada piloto tem seu jeito de ser e de pensar. Amigos, amigos, é difícil dizer. Amigos, eu tenho talvez no paddock; entre os pilotos, a amizade mesmo, pura, é mais difícil de ter. Mas eu não tenho problema com ninguém, e isso é importante também”

A conversa, então, chega à nova equipe. Foram oito temporadas de Ferrari, e agora o brasileiro se encontra um time que também tem um passado vitorioso, icônico e que tenta se reerguer. Massa admite alívio pela mudança de ares, diz que está feliz e acha ainda terá um caminho longo com esquadra inglesa no Mundial. “Eu acho que foi uma mudança muito bacana para mim, sim”, avalia, ressaltando que tem nas mãos um carro muito melhor que o último que teve na Ferrari e que e tem potencial para muito mais.

“Eu mudei para uma equipe que tem um carro mais competitivo do que da equipe que eu estava. Temos grandes possibilidades e ótimos pensamentos não só para agora, mas também daqui até o final da minha carreira com a Williams. Eu me dou muito bem com o carro, gosto muito de guiá-lo. Eu me encontrei muito bem com esse carro.”

O campeonato, entretanto, tem sido mais complicado que o planejado. Mesmo tendo o carro que mais evoluiu desde o início da temporada, Massa se viu impedido de lutar por resultados melhores devido a pelo menos quatro incidentes neste ano. Na Hungria, Felipe conseguiu espantar a fase de infortúnios com o quinto lugar. Mas reiterou que não sofre qualquer pressão dentro da equipe, justamente por conta de que os contratempos estiveram longe de seu controle.

“O meu pensamento é só na corrida. É fazer o meu trabalho direito. Não estou preocupado em como estou guiando. É claro que aconteceram muitas coisas e que a maioria não foi culpa minha. Mas isso vai passar. E tenho certeza que senão acontecesse esse tipo de coisa, a gente vai estaria lá, brigando pelo pódio, como o meu companheiro mostrou nas últimas corridas.”

Seja como for, as críticas surgem impulsionadas pelo sobe e desce dos resultados e performances. Questionado sobre como lida com as reações negativas do próprio público brasileiro ou se sente-se injustiçado de alguma forma, Felipe rechaça. “Nosso país é assim”, diz.

“Existem muitas críticas em tudo. Se você for olhar, até o Ayrton Senna sofreu muitas críticas. Por exemplo, no ano em que ele morreu, ele estava sendo massacrado. Só que agora ninguém lembra. Eu era criança e me lembro. Isso faz parte da nossa mentalidade. Infelizmente, de muitos lados, a nossa mentalidade não é a correta.

A crítica faz parte, e a gente talvez acabe até se acostumando com elas logo cedo. Eu não tenho problemas com isso. Sem dúvida, seria mais interessante ter menos do que a gente tem, mas faz parte. E isso não acontece só comigo, acontece no futebol, em geral. É um país onde é muito fácil criticar.”

Na sequência, a RWUp pede para Massa listar os três melhores e os três piores momentos desses anos todos de F1. As lembranças mais queridas vêm de maneira rápida.

“Eu acho que o primeiro grande momento foi quando eu entrei na F1. Eu estava realizando um sonho de virar um piloto de F1, o primeiro sonho. O segundo momento... foi a primeira vitória no Brasil. E o terceiro momento, sem dúvida, foi a disputa do campeonato de 2008. Isso até agora.”

Já os tempos difíceis são mais pensados.

“Os três piores? Eu acho que foram dois, na minha opinião: o acidente e... não, não, foram três piores: a corrida de Cingapura/2008, o acidente e a corrida de Hockenheim em 2010. Esses foram os três piores momentos.”
A primeira vitória de Felipe Massa no Brasil, em 2006. (Foto: Getty Images)
Entrando em um âmbito mais pessoal, é notória a importância da família ao lado de Felipe. O pai Titônio, o irmão Dudu, a esposa Rafaela e o filho Felipe fazem um revezamento. E um carinho e uma força que sempre são destacados. E ao ser indagado sobre o que muda na vida de um piloto ter um filho e se o comportamento é outro em pista, o brasileiro afirma que são coisas diferentes. “Eu acho que ter um filho muda a vida de qualquer pessoa”, fala.

“É um prazer ser pai. Acho que o prazer de ter um filho muda a vida, sim, sem dúvida. Mas quando eu estou trabalhando, eu nem lembro que tenho um filho, eu nem sei que tenho filho. Quando eu fecho a viseira e vou para a pista, eu não penso no meu filho, na minha mulher, na minha família, em ninguém. Isso continua sendo igual. Mas o prazer de ser pai, de ter uma pessoa que depende de você, que aprende e cresce junto, em que você é a referência, é difícil de explicar o que significa tudo isso, o que significa ser um pai.”

Massa se tornou piloto por causa do pai. E acha que é possível ver o filho também adotar o mesmo caminho.

“E não é impossível que um dia ele se torne um piloto, porque é o ambiente, ele me vê sempre aqui. Por exemplo, eu quis ser piloto por causa do meu pai, não foi porque eu ficava vendo F1. Eu quis me tornar piloto por causa dele. O pai é, sem dúvida, um exemplo bem forte dentro de casa. Não é impossível de acontecer, mas é algo também que vai depender dele. Não depende de mim. Eu vou ajudar o meu filho em tudo que eu puder como pai, mas não sou eu que vou falar o que ele tem de fazer porque eu quero. Ele que tem de querer e não eu.”

Felipe também se vê como uma referência para o automobilismo no Brasil. Único representante tupiniquim na F1 desde o ano passado, Massa olha para o esporte nacional com preocupação, mas descarta assumir qualquer papel de dirigente ou coisa parecida quando encerrar a carreira nas pistas. “De jeito de nenhum. Acho que não é a coisa certa a se fazer, independente se precisa. Que precisa, precisa, mas eu acho não entraria nessa, não.”

Felipe sente, contudo, que tem a responsabilidade de ser o homem do automobilismo no Brasil enquanto piloto. “No momento em que você está lá, vencendo corridas, ganhando campeonatos, ou mesmo hoje, em que eu sou o único piloto, eu continuo sendo uma referência, sem dúvida, para o automobilismo nacional.”

Por fim, o piloto da Williams também se mostra apreensivo quanto à queda de audiência da F1 e acha que a categoria precisa seguir um caminho diferente para recuperar a popularidade, mas entende a dificuldade de atrair o público.

“Não é só a F1 que perdeu audiência. Hoje em dia com a internet, com as redes sociais, a audiência caiu em outras coisas. É sempre melhor ter o maior tempo de transmissão, e isso vale para qualquer esporte. Sem dúvida, se a Globo mudou alguma coisa, mudou pela audiência”, afirma, ao ser perguntado sobre as alterações na programação da emissora carioca quanto à F1. “O mundo está mudando e está seguindo outro caminho. E penso que a F1 deveria seguir esse rumo, para onde o mundo está indo”, completa, falando sobre um investimento maior do Mundial em redes sociais e interação com os fãs.

E até quando pretende correr, Felipe? A resposta foi direta: “Até onde tiver vontade.”

“Eu penso em correr até onde eu tiver vontade. Até onde me sentir feliz e competitivo. Acho que, na hora que essas três coisas não estiverem funcionando direito, então é hora de parar. Mas eu penso em continuar correndo depois, não sei aonde ainda, mas eu penso nisso, sim. Aqui fora mesmo, não sei, ainda preciso pensar sobre isso.”
 

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