Edição 53
Agosto/2014

Carro-chefe: Um salto para a felicidade

Williams cresce, sonha com vitórias e já vislumbra a possibilidade de ser vice. Só que precisa bater a atual campeã Red Bull

EVELYN GUIMARÃES, de Hungaroring
Veio de Rob Smedley, o celebrado engenheiro-chefe da Williams, a frase que resume bem o momento que a equipe de Grove atravessa em 2014 na F1: “Este time ainda quer terminar o campeonato na segunda colocação, e isso é altamente possível.” A frase deixa claro que todo o longo processo de desenvolvimento do FW36 foi calculadamente pensado nesta temporada, apesar do tempo que levou para a performance de fato aparecer. Tudo isso também é fruto de um trabalho que começou ainda no ano passado, quando a esquadra britânica decidiu se reestruturar.

Primeiro, a equipe agora liderada por Claire Williams optou por colocar um ponto final na parceria com a Renault e anunciou um acordo com a Mercedes, ainda em maio de 2013, para junto com os alemães iniciar a era dos motores V6 turbos de 1.6 L na F1. A decisão se revelaria uma das mais acertadas da história da equipe. Depois, o time foi atrás de Pat Symonds, que estava esquecido na Marussia após cumprir suspensão pelo escândalo do acidente proposital de Nelsinho Piquet no GP de Cingapura de 2008.

Symonds começou como novo diretor-técnico da escuderia inglesa em agosto do ano passado, já focado no projeto deste ano, especialmente devido às novas regras. Na sequência, a Williams e a gigante petrolífera PDVSA romperam, o que rendeu dividendos importantes em forma de multa por quebra de contrato por parte dos venezuelanos e deixou livre o lugar de Pastor Maldonado. A vaga foi preenchida por Felipe Massa, recém-dispensado da Ferrari. E Bottas continuou no outro carro.

A cereja do bolo foi, sem dúvida, o contrato com a Martini no início deste ano. A icônica marca italiana se tornou patrocinadora-máster de Grove e deu um ar nostálgico e charmoso ao FW36. É claro que o vínculo proporcionou fôlego novo e foi um dos responsáveis também pela vinda de Smedley, também recém-desligado de Maranello. Pronto: havia, agora, a possibilidade de um recomeço. E o time não perdeu tempo, apesar da chegada tardia do engenheiro inglês — Rob só pôde começar a trabalhar nas garagens britânicas em abril.

A pré-temporada mostrou que a Williams havia acertado a mão. O carro esteve longe de falhas por confiabilidade e exibiu velocidade. E tantos os titulares, Massa e Bottas, quanto o reserva Felipe Nasr conseguiram acumular quilometragem expressiva nas semanas de testes em Jerez de la Frontera e, mais tarde, no Bahrein. O desempenho gerou grande expectativa e a ideia de uma briga mais parelha com a Mercedes. Não foi bem isso o que se viu depois, como se sabe.
Valtteri Bottas subiu ao pódio em quatro das últimas cinco corridas. (Foto: Williams F1)
É claro que a real performance apresentada pela Mercedes logo na Austrália jogou um balde de água fria, e não só na Williams, mas em todos. No caso do time inglês, a corrida, que acabou prematuramente para Massa devido a um acidente logo na largada, acompanhou a ascensão de Bottas, que não hesitou em usar o bom carro produzido em Grove para alcançar um quinto posto depois de quase ter colocado tudo a perder ao bater com a roda traseira direita no muro na perseguição a Fernando Alonso.

Na prova seguinte, na Malásia, surgiu o primeiro imbróglio, com uma ordem para que Massa abrisse passagem para Bottas em uma disputa pela sétima posição. O brasileiro não obedeceu, e as coisas pareciam descambar. Foi preciso tato para lidar com o descontentamento também do finlandês. No fim, a situação foi resolvida, mas a Williams seguia na pista no pelotão intermediário com performances irregulares. Ainda assim, Felipe e — principalmente — Valtteri foram galgando pontos aqui e ali, em meio a erros de estratégia e abandonos. Foi assim até a Áustria.

O reformulado circuito do Red Bull Ring serviu de palco para a primeira grande apresentação da equipe inglesa em 2014. Massa se aproveitou dos raros infortúnios dos pilotos da Mercedes para cravar a pole-position. Bottas veio na cola e se pôs em segundo, formando uma inesperada dobradinha. Até daria para ter vencido não fosse o conservadorismo da Williams. Conformada com uma posição atrás da Mercedes, o time contou mais com a agilidade do finlandês do que uma tática mais audaciosa para assegurar o terceiro lugar do pódio, com Massa atrás.

A prova seguinte, na Inglaterra, acompanhou um novo erro grave, que acabou condenando a esquadra a largar do pelotão intermediário. A equipe perdeu o melhor momento da pista, quando não chovia, e deixou para mandar Massa e Bottas muito tarde, quando o asfalto já estava bastante molhado. Para piorar, Felipe não deu sorte de novo na corrida e acabou atingido pelo carro de Kimi Räikkönen ainda na primeira volta. Já Bottas escalou o pelotão, usou a tática de paradas a seu favor e subiu ao pódio novamente, mas agora na segunda posição. De novo, a velocidade do nórdico fez mais diferença.

Na Alemanha, novamente, a equipe inglesa surgiu com o segundo carro mais veloz. Bottas saiu de segundo no grid, logo à frente de Massa. Uma vez mais, o brasileiro se viu em apuros ainda na primeira volta. Um toque com Kevin Magnussen o fez abandonar. Valtteri, por sua vez, seguiu em frente e segurou bem Hamilton para repetir o resultado de Silverstone.

Apesar dos erros, acertos e abandonos, o desempenho nas três provas colocou a Williams em um surpreendente terceiro posto no Mundial de Construtores. Na ocasião, o time inglês superou a Ferrari por cinco pontos e ficou a 67 da vice-líder Red Bull.

Aí veio a corrida na Hungria e com ela um novo drama. O travado circuito magiar não seria o palco ideal para a continuidade que a Williams precisava. O time desembarcou em Hungaroring sabendo que não teria vida fácil. Isso porque o FW36 tem mais apreço por longas retas e curvas de alta velocidade. O que ainda falta carga aerodinâmica ao modelo, daí a preocupação de Smedley e companhia.

De todo modo, a equipe inglesa não se saiu tão mal, mesmo que tenha caído de volta para o quarto posto entre os Construtores. Massa foi quinto; Bottas, oitavo — aquém dos resultados anteriores. Novamente, o conservadorismo do time nas táticas prevaleceu. Mesmo os dois pilotos garantindo uma melhor performance com os pneus macios, a direção da Williams não abriu mão da tática inicial. Certamente, a ousadia teria dado a chance de ambos tentarem posições à frente.

E foi diante desse cenário que a esquadra britânica encerrou a primeira parte do ano. A evolução foi evidente, daí a meta de conseguir o vice-campeonato e tentar vencer corridas. Mas é suficiente? Smedley, Massa, Bottas e a chefe-mor, Claire, concordam.

"Eu espero que sim", afirma a filha de Frank Williams ao ser questionada sobre a capacidade do time para vencer na segunda parte do campeonato. "É por isso que estamos aqui, para vencer corridas. A equipe tem feito um grande trabalho neste ano. Nós mudamos tudo ao nosso redor. Estamos construindo tudo isso de novo. Ainda há muito trabalho a ser feito. A Mercedes está muito na frente no momento, mas eu acho que conseguimos reduzir um pouco essa diferença na Alemanha, por isso será interessante ver o que poderemos fazer em Spa e Monza", acrescenta Claire, admitindo que o grande trunfo na manga da Williams em 2014 é, de fato, o motor. "Obviamente, o motor Mercedes tem nos ajudado muito e tem orientado a nossa competitividade neste ano, então é um fator de grande importância."
“Na pista, estamos progredindo constantemente, tanto em treinos como em corridas” — Rob Smedley, engenheiro-chefe da Williams
A batalha que a Williams terá pela frente não é fácil e é contra a atual tetracampeã, a Red Bull, que costuma crescer no segundo semestre. Mas os ingleses também têm suas cartas na manga. A Williams só conseguiu mostrar o potencial que revelou lá atrás, na pré-temporada, no segundo quarto do campeonato, e isso se deu por conta de mudanças profundas dentro da fábrica, no método e na melhor avaliação dos componentes que lá nascem. A opinião é de Rob Smedley, o homem que fala pela equipe nos paddocks do mundo desde que começou seu trabalho como engenheiro-chefe.

Em coletivas de imprensa cada vez mais concorridas, o britânico de 41 anos se mostra tranquilo para falar com os jornalistas e responde calmamente, sempre tentando embasar o otimismo com que olha o futuro do time. "A velocidade de desenvolvimento e os testes de metodologia dentro da fábrica mudaram e melhoraram muito nesses meses, e foi isso que nos permitiu manter esse forte ritmo frente aos rivais, ou muitas vezes até melhor do que deles", diz o engenheiro em entrevista acompanhada pela REVISTA WARM UP no circuito de Hungaroring. "Na pista, estamos progredindo constantemente, tanto em treinos como em corridas. É um fato. Há áreas que ainda temos de olhar com mais atenção dentro da fábrica, e temos certa estrutura envolvida com a evolução — isso melhora o tempo todo. É importante”, continua.

Algumas coisas que se deseja ver no carro levam tempo. “Você pode nem ter nas próximas corridas ou mesmo ter de esperar até o próximo ano. Mas temos de lidar com isso”, fala Smedley. “Algumas coisas a gente já consegue resolver com o grupo de operações em dez minutos. Na verdade, é um malabarismo constante.”

Todo o trabalho agora é voltado para a meta de finalizar o ano como vice, especialmente depois de que ficou comprovada a real competitividade do FW36. "No momento, estamos trabalhando duro no desenvolvimento do carro, porque nós ainda queremos terminar o campeonato na segunda colocação e eu acho que isso é altamente possível."

"Na segunda parte do ano, nós vamos continuar melhorando, continuar tentando. Essa é a natureza desse esporte. Não podemos esquecer disso", destaca.

Smedley leva em conta as pistas com características mais ajustadas ao bem-nascido FW36. Deste ponto de vista, os dois primeiros circuitos do calendário do pós-férias deveriam ser os ideais para a conquista do grande resultado do ano — a primeira vitória. "São grandes oportunidades e temos de usar toda a característica do carro. Nós achamos que esses traçados se ajustam ao nosso carro. E nós precisamos tirar toda a vantagem possível e nos colocar em uma boa posição", explica, ainda antes da prova belga.

Em Spa-Francorchamps, a chance de capitalizar em cima do toque de Lewis Hamilton e Nico Rosberg foi desperdiçada, muito por conta de uma classificação ruim com a pista molhada no sábado, e agora resta Monza.
Pole na Áustria, Felipe Massa entende que a maior competitividade da Williams vem em função de alterações técnicas e do bom conjunto. (Foto: Wiliams F1)
Mas a evolução também é celebrada por Felipe Massa. O brasileiro admite que o desempenho “surpreendeu a todos” e concorda com o engenheiro sobre as mudanças feitas dentro da equipe inglesa. Para Felipe, a grande atenção com o lado técnico está pesando para a performance que a esquadra exibe na pista. “Eu tenho certeza de que faremos uma segunda metade de campeonato muito melhor, especialmente levando em consideração o carro que temos até o momento", afirma o brasileiro. "Spa e Monza são pistas ótimas, talvez Austin e Brasil possam ser boas também. Mesmo Abu Dhabi, a última do calendário, que tem algumas retas, pode se adaptar ao nosso carro. Talvez apenas em Cingapura seja mais complicado. Mas o carro pode ser competitivo em muitas outras pistas, não só em Spa e Monza. Nessas duas é que há a chance de sermos mais fortes que os outros", salienta.

Massa também entende que a maior competitividade da Williams vem em função de alterações técnicas e do bom conjunto. "A evolução que estamos apresentando neste ano mostra que o trabalho técnico está sendo muito bem feito dentro da fábrica", fala à WARM UP. "Além disso, na pista, o trabalho de desenvolvimento do carro também está sendo muito bom. É dos dois lados. E isso é muito positivo. Sem dúvida, podemos melhorar ainda mais até o fim da temporada”, acrescenta Massa, dizendo que vê a equipe britânica já pronta para a primeira vitória em 2014. "Eu sinto a Williams totalmente pronta para voltar a brigar por vitória ou até por campeonatos", ressalta, afirmando que vê, sim, uma chance real de vice nos Construtores. “Por que não? Tudo é possível.”

A opinião é a mesma de Valtteri Bottas, o melhor entre os dois pilotos do time na tabela de classificação. Em grande fase neste ano e já dono de três pódios consecutivos, o nórdico aparece em quinto, com 110 pontos, 70 a mais que o parceiro. "Acho realmente que a segunda parte da temporada pode ser muito boa para nós", fala. "Esta corrida na Hungria, a gente precisa tirar lições e continuar aprendendo. Nós já sabíamos que essa talvez fosse a pior pista para nós, mas nós ainda conseguimos alguns pontos. Não é perfeito, mas, olhando para o que ainda vem na temporada, acho que será legal. Acho que teremos bons momentos ainda. O que precisamos é continuar mantendo o desenvolvimento e ir melhorando."

Assim como Smedley e Massa, Bottas é outro que reforça a ideia de que a ascensão da Williams vem da organização do trabalho dentro da fábrica e de uma melhor compreensão daquilo que é projetado para os carros. "Eu acho que a principal diferença para o ano passado é que nós continuamos trazendo muito mais componentes novos. Só que, nesse ano, todas as atualizações que tivemos funcionaram muito bem. A correlação entre o túnel de vento e a pista foi muito melhor, também houve algumas mudanças na forma de como a fábrica trabalha com o túnel de vento e tudo está realmente funcionando”, diz. "Também estamos mais seletivos com relação às novas partes, e talvez isso tenha nos dado uma visão mais ampla do carro e em que áreas focar. Aí está a principal diferença.”
A briga com a Red Bull promete ser dura, até o fim da temporada. (Foto: Getty Images)

Nem tudo são flores

Mesmo considerando o grande desenvolvimento da Williams e as mudanças feitas dentro da fábrica, Smedley acha que ainda há um longo salto a dar para encontrar a felicidade. O engenheiro-chefe reconhece que o extremo conservadorismo da equipe em momentos decisivos ainda depõe contra e pode se tornar um fator determinante para a posição final do time no campeonato.

"Acho que fizemos 60% do que deveríamos ter feito em termos de operação. Então não é apenas quando as coisas acontecem de forma terrivelmente errada que eu viro e digo que temos de melhorar as nossas operações. Nós temos de melhorar as operações, na verdade. Temos de fazer isso", diz o engenheiro. "O importante para a Williams agora é, talvez, uma ligeira mudança de cultura. Ou seja, nós vamos lá e vamos tentar entender o que fizemos bem, o que não fizemos bem e tentar melhorar em todos os aspectos. A cada corrida, a cada saída dos pits, você aprende alguma coisa e pode melhorar. Precisamos usar isso. E até quando estamos em primeiro e segundo, mesmo com certa diferença, nós não vamos parar de tentar melhorar", reitera.

Só que todo esse trabalho não para aí, de fato. A esquadra inglesa quer vencer Mundiais. E já pensa, sim, no próximo campeonato, embora ainda se preocupe com o desenvolvimento do atual carro. "Essa é uma pergunta que todos os times têm de se fazer agora, mas nós temos recursos limitados – ou um tempo de desenvolvimento limitado aqui dentro. E isso também se deve aos regulamentos, mas agora teremos de tomar decisões quanto a isso. Ou seja, continuamos desenvolvendo esse carro, mas já pensamos em quanto de recurso colocaremos no carro do próximo ano. Mas temos de continuar", afirma Smedley. "A nossa intenção é ganhar campeonatos. E, para isso, teremos de vencer todos que estão aí. No momento, nós estamos atrás da Mercedes, mas estamos ali, também lutando com a Red Bull", encerra.

Pista por pista

O grande entrave na vida da Williams rumo ao vice-campeonato a Red Bull. Atual segunda colocada, a equipe austríaca não vai ser facilmente alcançada pelos ingleses, e a principal razão para se pensar assim é que a operação do time é extremamente precisa. Nas três provas em que a Mercedes hesitou, Daniel Ricciardo venceu. Mesmo em Spa, um circuito ao qual chegaram falando em somente minimizar o prejuízo, mas no qual anotaram 35 pontos. E, assim, vem conseguindo pontuar até mais que as Flechas Prateadas nessas ocasiões. A seguir, a REVISTA WARM UP faz uma projeção dos possíveis desempenhos das duas escuderias nas pistas que faltam para o encerramento do Mundial — com base, é claro, nas características atuais dos carros, já que a Red Bull venceu em todas elas no ano passado (exceto em Sochi, que é uma novidade).

 

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