Edição 53
Agosto/2014

Estepe: Duplicidade e dubiedade

As rodadas duplas da Stock Car foram bem aceitas no meio da categoria mesmo por aqueles que não são grandes defensores do formato, mas ainda estão sendo decifradas por pilotos e equipes

GABRIEL CURTY e RENAN DO COUTO, de Goiânia
 
Dá para dizer que o povo gostou das rodadas duplas. O novo formato de disputa da Stock Car, introduzido na atual temporada, rendeu boas disputas no primeiro semestre e vem agradando até mesmo aqueles que possuem um tom mais crítico. E se, por um lado, o modelo acrescentou em emoção, por outro, ainda não foi completamente decifrado pelos competidores.

A primeira parte da temporada contou com três dobradinhas, nos circuitos de Santa Cruz do Sul, Brasília e Goiânia, e o que se vê na tabela de classificação é um equilíbrio enorme. Apenas dois pilotos venceram mais de uma vez no ano, nenhuma equipe conseguiu faturar duas vitórias no mesmo fim de semana e a pontuação está extremamente parelha. Mais do que isso, estabeleceu, ao menos nesta fase inicial do campeonato, uma nova divisão de forças. Nenhum dos três campeões em atividade — Cacá Bueno, Ricardo Maurício e Max Wilson — subiu ao alto do pódio em 2014.

Essas primeiras rodadas duplas serviram também como aprendizado para todos. Foi uma oportunidade pilotos e equipes se acostumarem com a radical mudança antes da parte mais intensa da temporada começar: a agenda do segundo semestre tem uma maratona de corridas e apenas uma pausa mais extensa, no mês de outubro. É agora que o joio será separado do trigo, ou, falando no vocabulário das corridas, que a disputa vai afunilar.

O aprendizado mencionado inclui, principalmente, o modo como se trata cada uma das baterias da rodada dupla. Basicamente, o que se notado é que os times estão optando ou por apostar suas fichas em uma das provas, ou em tentar somar pontos em ambas para crescer na tabela na base da regularidade. “É importante entender que hoje, dentro da etapa da Stock Car, existem duas corridas”, afirma o já experiente Thiago Camilo à REVISTA WARM UP.

Até o momento, indicar qual das estratégias é a mais acertada não é tarefa fácil. Depois da Corrida do Milhão, os dez primeiros colocados estavam separados por 21 pontos, sendo que seis deles venceram ao menos uma prova. Em contrapartida, o terceiro colocado era Júlio Campos, que jamais triunfou na Stock Car. O que ele fez em Brasília contribuiu muito para esse posicionamento: sexto em uma prova e segundo na outra, somou 28 pontos, mais que os vencedores da rodada, Átila Abreu e Thiago Camilo.
Um domingo em Cascavel, dois vencedores: Rubens Barrichello e Marcos Gomes. (Foto: Divulgação/Nova Schin)
Para falar a verdade, todos que ganharam a corrida longa optaram por abrir mão da prova mais curta ao realizar pit-stops mais rápidos e colocar menos combustível durante a primeira bateria. No início da segunda bateria, tiveram de ir aos boxes reabastecer e caíram pelas tabelas. O lado negativo disso é que o torcedor-médio não consegue acompanhar facilmente o que está acontecendo — ligar os pontos e compreender as muitas variações táticas é um exercício que envolve alguma dubiedade e exige bastante raciocínio.

Ao mesmo tempo, o formato dá a chance para que um piloto que não vai tão bem na classificação se recupere dentro do mesmo fim de semana. Foi o que fez Thiago Camilo — duas vezes. 17º na tomada de tempos em Brasília e 16º em Goiânia (etapa de junho), concluiu as provas mais longas em décimo e, largando da pole com a regra do grid invertido, levou para casa dois troféus de primeiro lugar.

Diante de toda essa duplicidade, as opiniões no paddock da categoria são divididas.

“O grande problema de ser regular é saber a estratégia que você vai fazer”, alerta o atual campeão Ricardo Maurício em entrevista à REVISTA WARM UP. “Não dá para você mensurar a regularidade do cara. Corrida passada, aqui mesmo, eu fiz um terceiro lugar. Fui comparar com quem fez pontuação parecida — por exemplo, o Pizzonia, que fez um 11º e um sexto lugares. Resultados bons, mas não excelentes. Mesmo assim, ele fez 17 pontos. Eu, com um terceiro, lugar, fiz 18. O que interessa é a regularidade de pontuação e não de posições”, observa.

“Acho que nenhuma equipe entendeu 100% qual a melhor colocação para colocar seu carro e fazer mais pontos, mas hoje está mais fácil de fazer bons pontos na categoria. Mas, para você ser campeão, na minha opinião, você precisa fazer as duas provas. Um piloto que vai para as duas provas acaba, sim, fazendo mais pontos”, avalia o paranaense Júlio Campos à RWUp.

Já Átila Abreu, que ganhou na primeira bateria da etapa de Santa Cruz do Sul, fala à RWUp que “você tem que optar pela estratégia de arriscar tudo na primeira”, colocando como alternativa o plano de prejudicar a pontuação da prova longa para tentar pontuar bem nas duas. “Tem certa matemática.”

Enquanto isso, o pentacampeão Cacá Bueno diz que a melhor tática é a de se investir nas duas provas, embora isso envolva um risco: o de se envolver em um acidente, como aconteceu com ele na passagem pelo Rio Grande do Sul. “Tomei uma pancada na largada da segunda bateria. Você está mais exposto ao risco, então é difícil equilibrar isso”, diz à RWUp. “Mas, sem dúvida nenhuma, o piloto que opta por correr as duas e não ganhar nenhuma das duas faz mais pontos que os vencedores das corridas. Isso é um pouco contrassenso. Um piloto que passe o ano lutando pelo título talvez fique sem ganhar corridas ou ganhando poucas”.

Por esta ótica, as rodadas duplas podem ser vistas como uma única corrida na qual nem sempre o vencedor é quem se dá melhor.

Falem, pilotos

À parte dessa discussão estratégica, tem também a questão das rodadas duplas ter caído ou não no gosto dos pilotos. E, no geral, a aceitação foi mesmo positiva.

ÁTILA ABREU

“Não acho que o regulamento é o mais justo, mas, para o público, o efeito é que tudo está muito embolado, e pontuar vai ser fundamental. É a constância que vai fazer a diferença. Hoje, mesmo cometendo um erro na classificação, não estando tão bem, é possível reverter um fim de semana. Acho que isso realmente equilibra tudo.”

CACÁ BUENO

“Gosto pouco. Na verdade, prefiro a rodada simples. Acho que mesmo com um carro bom, você consegue descolar no campeonato, e aí eu entro sempre no assunto de quando eu falava do playoff, que é o mérito desportivo. Mas parece que tem fornecido boas corridas, então não é que eu odeie, igual a algumas outras. É uma questão de preferência: prefiro uma só.”

JÚLIO CAMPOS

“Para o campeonato e para o público, estamos aí pelo entretenimento, está legal, divertido, e para guiar também, pois você olha e está em 15º; de repente, faz um pódio já na corrida seguinte. Estou gostando desse jeito. Mas está confuso ainda, bem confuso.”

LUCIANO BURTI

“Acho que agrada mais o público do que os pilotos, mas, sendo bom para o espetáculo, eu estou de acordo também.”

MARCOS GOMES

“Eu fui bem contra as duas. Achei que ia ficar um pouco loteria, embaralhado. Talvez esse negócio das variáveis de estratégias poderia ser um pouco mudado, diminuindo esse gap entre a parada longa e a parada curta. Mas, com certeza, eu gostei, e maioria dos pilotos gostou também.”

SÉRGIO JIMENEZ

“Acho que o novo formato está deixando a categoria muito mais disputada, estamos tendo as rodadas duplas com etapas muito disputadas. O piloto e a equipe que conseguirem ser mais constantes vão terminar na frente. Mas eu sou a favor de uma corrida mais longa, envolve mais o piloto, ele tem de salvar mais o equipamento. Seria bem interessante.”

THIAGO CAMILO

“Dentro de um formato, acho que as mudanças têm sido positivas. O público tem aceitado, tem gostado bastante, e é isso que importa. A gente conseguir dar um show e promover o espetáculo.”

VALDENO BRITO

“Talvez uma corrida longa fosse bem interessante, mas, entre ano passado e este ano, eu tenho preferido este. Por ter mais chances, pela maior exposição. Mas uma corrida longa seria fantástico.”
 
Terceiro colocado na primeira corrida e quinto na segunda, Átila Abreu marcou mais pontos em Cascavel do que os vencedores. (Foto: Carsten Horst/Hyset)

“Melhor do que a gente imaginava”

Mais otimista que a opinião dos pilotos é a do promotor Maurício Slaviero, diretor-geral da Vicar. “Cara, diria que foi melhor do que a gente imaginava”, afirma o dirigente ao ser perguntado pela REVISTA WARM UP durante o fim de semana da Corrida do Milhão.

A proposta das rodadas duplas foi apresentada após discussões com a Globo e o SporTV para acertar os moldes da transmissão da categoria na TV em 2014. A realização de duas corridas em um mesmo fim de semana rendeu à Stock Car mais tempo no ar no SporTV nas manhãs de domingo. E Slaviero, embora não tenha mencionado os números, garante que está satisfeito com o retorno de audIência.

“A gente queria mais mídia, mais público, e a repercussão que a gente ouve, entende, foi muito boa. Os próprios números do SporTV foram ótimos. E especialmente pessoas que não viam a Stock Car — não que a gente tenha feito pesquisa, mas o boca-a-boca — estão vendo, pessoas nos dizem que amigos deles estão começando a ver porque estão vendo um negócio diferente e com uma emoção maior”, diz. “Claro que foram só três corridas, tem que esperar até o fim do ano para ter uma noção maior”, pondera.

Com relação a ajustes para o próximo ano, os pilotos destacaram alguns pontos. Os que mais chamaram a atenção foram os pedidos por uma padronização dos pit-stops, para deixar a dinâmica da corrida mais compreensível, e a derrubada da regra que determina que o piloto que ficar parado na pista por qualquer que seja o motivo na primeira corrida não pode legar na segunda.

“Deveria ter uma quantidade de litros obrigatória para ser colocada [no reabastecimento], acho que acabaria com as estratégias loucas que estão acontecendo”, opina Campos.

“O que eu gostaria é que a gente tivesse um tempo um pouco maior de intervalo”, fala Cacá, “e pudesse recuperar alguns carros que ficaram parados na primeira bateria. Já pagaram uma punição muito grande, fizeram zero ponto e vão largar em último — ou nem largar. Seria a única coisa que eu modificaria.” Mas o próprio carioca entende que alterar a programação pode ser difícil por causa da relação com a televisão. “Tudo tem prós e contras. Se complica para a televisão, que é onde está a maioria do nosso retorno publicitário, também complica para a gente.”

Slaviero confirma que a Stock Car está aberta a mudanças e atenta para fazer eventuais ajustes no próximo ano — sendo que a pontuação é o que está sendo mais analisado pela promotora da categoria a esta altura do campeonato. “Sempre tem detalhes. Veja bem, a gente não tem como fazer uma coisa nova dessas e acertar 100%. A gente até gostaria, ficou um ano planejando isso para ter o mínimo de mudanças possíveis, mas sempre tem uma ciobinha ou outra que a gente pode mexer”, admite.

“A gente está pensando se a segunda corrida pode ter um pouco mais de pontos, vamos ver se dá um pouquinho mais de pontos para ela. Mas não tem nenhum ponto que eu digo para você ‘isso aqui precisa mudar’, ainda não tem nada que a gente está preocupado que aconteça. Se não, a gente já teria mudado”, diz.

Segundo ele, o fator mencionado por Cacá se dá por uma questão logística: “Tem sempre que pensar no pior cenário. Se acontece de seis carros terem um problema qualquer e pararem na pista. Como é que eu vou fazer para resgatar seis carros no tempo que eu preciso? Aí vou resgatar quatro, e dois vão ficar na pista. Quem que vou resgatar primeiro? O que não for resgatado vai ficar puto da cara, então essa foi a razão. A não ser que tivesse dez resgates aqui, mas é inviável. A gente está tentando achar uma saída que seja justa. Tiveram até ideias, mas nenhuma que seja boa para evitar o risco de prejudicar um em detrimento do outro. Por isso tem a regra.”

A sequência de rodadas duplas do segundo semestre tem início em Cascavel e continua com as idas da Stock Car para Curitiba, Velopark e Salvador. Então acontece uma pausa no mês de outubro e, em novembro, a categoria passa por Tarumã e Ribeirão Preto para mais duas dobradinhas. A final, no dia 30 de novembro, será em Curitiba e terá duração de 40 minutos valendo pontuação dobrada.
 

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