Edição 53
Agosto/2014

Stop & Go: Helio Castroneves

“A minha estratégia nessa corrida é a mais simples de todas: vou pra pista para ganhar a corrida. Vai ser uma decisão daquelas”

GABRIEL CURTY, de São Paulo
A decisão da Indy acontece neste sábado em Fontana, e Helio Castroneves tem de descontar uma diferença considerável para tirar de Will Power o título. Os dois pilotos carregam a sina dos vices e disputam praticamente só entre si a taça da acirrada temporada de 2014. Após a etapa de Sonoma, o brasileiro, que teve seu desempenho afetado por um incidente no começo da corrida, falou que tem uma única tática: vencer.

REVISTA WARM UP: O toque após a largada afetou muito o desempenho do carro?

Helio Castroneves: Totalmente. Além de quebrar o spoiler dianteiro esquerdo e me obrigar a fazer uma parada para trocar o bico, tive de parar logo a seguir para cortar um pedaço da proteção traseira direita, que estava pegando no pneu. Para completar, comprometeu a suspensão. Não houve uma quebra, o que me faria abandonar a corrida, mas entortou alguma coisa e o carro ficou bem desequilibrado, difícil de guiar..

Por que a Penske não conseguiu se recuperar ao longo da corrida?

O meu pessoal fez um trabalho incrível. Alías, bota aí: o pessoal que trabalha no meu carro é maravilhoso. Só que o nível de reparo que precisava ser feito não tinha condição de ser feito na pista. Então, como a segurança não estava em risco, fui assim mesmo.

A estratégia se mostrou conservadora?

Não, nada disso. Nossa estratégia era bem forte, mas depois do acidente e com o carro desequilibrado, o negócio foi lutar para se manter na pista e segurar o bicho no braço.

A batida com Bourdais e Saavedra complicou de vez o rendimento do carro?

Acabou com a minha corrida. Eu primeiro levei um toque lateral do Bourdais, que me jogou para cima do Hinchcliffe. Aí o Saavedra me pegou por trás. Aí já viu, né?
O brasileiro acompanha Will Power na colocação do selo de candidato ao título da temporada no carro #12 (Foto: AP)
É claro que ainda é possível, mas a combinação de resultados aponta que você precisa chegar no pódio obrigatoriamente. A Penske "liberaria" a briga a ponto de poder tentar esconder alguns dados que seu time colher nos testes em Fontana?

Não. A briga na Penske é sempre limpa. Tudo o que eu, o Will e o Juan Pablo conseguimos de dados, tudo, literalmente TUDO é compartilhado. Eu e o Will estamos totalmente liberados para lutar pelo título. Esse risco de ordem de equipe a gente não corre na Penske. Você tem de ter bom senso e respeito pelo adversário, mas a briga é aberta.

Você está numa posição em que não tem nada a perder. A pressão é menor? A tática é outra?

Cara, vou te falar uma coisa. A minha estratégia nessa corrida é a mais simples de todas: vou pra pista para ganhar a corrida e, contas, a gente vê depois.

Historicamente o seu desempenho em ovais é melhor que o de Power. Isto é um fator que conta ao seu favor? Ou hoje já é possível dizer que Power está no mesmo nível que o seu?

Olha, o Will tem aquele jeitão dele, mas de bobo ele não tem nada. Ele chegou até aqui porque sabe o que está fazendo. Mas como eu também sei, vai ser uma decisão daquelas. O legal da Indy é isso, muito competitiva e decidida somente na última prova.
 

 
A RWUp tornou a conversar com Helio Castroneves após a decisão da Indy, na qual o piloto acabou derrotado pelo companheiro de Penske, Will Power, e ficou com o vice-campeonato. Castroneves lamentou o desfecho da temporada para ele, mas comemorou o sucesso de sua equipe e garantiu que se sente capaz de novamente lutar pela taça no próximo ano.

Em Indianápolis, você disse que chegava para a corrida de uma forma diferente, mais relaxada e mais analítica, que tinha estudado todos os pontos anteriores onde havia errado nos anos em que não venceu lá. E depois do resultado, comentou que justamente aquele ponto — a linha de defesa do Hunter-Reay na faixa interna — nunca havia sido estudada porque era algo novo. Pegando por essa linha de análise, é possível traçar onde foram os pontos de erro do campeonato?

Num campeonato tão equilibrado e competitivo como o nosso, além de ser regular, você precisa estar sempre lutando pelas primeiras posições. Como está todo mundo junto, qualquer tropeço acaba tirando suas chances. Tivemos alguns problemas de equipamento, principalmente nessa fase final, que fizeram a diferença.

Você pareceu mais frustrado desta vez do que das anteriores em que perdeu, bem como em Indianápolis. Isso se deve ao erro cometido no fim da corrida ou é porque todo o campeonato foi meticulosamente planejado e o título não veio?

O trabalho que foi feito durante o ano foi muito bom, a caminhada em busca do título foi robusta e planejada. Claro que não é possível ter controle de tudo, mas foi um campeonato consistente. Obviamente não fiquei feliz, mas o esporte é assim mesmo e já estou pensando em 2015.

Você pode descrever como foi se desenvolvendo a estratégia durante a corrida? Num primeiro momento, parecia que você apenas queria comboiar os líderes para então atacar na segunda metade e conquistar eventualmente os dois pontos pelo maior número de voltas na liderança. Ou você vê que o carro não era o mais rápido da pista?

A ideia era estar no grupo da frente, não necessariamente na liderança, mas ali no bolo para não perder contato e não correr riscos desnecessários. Por ser uma corrida longa e com vários pits, era justamente aí onde a gente poderia ganhar ou perder muito terreno. E foi justamente no meu sexto e último pit é que a coisa se complicou por causa da falta que cometi. Então, meu carro era rápido. Talvez não o mais rápido, mas o suficiente para eu lutar pela vitória.

Você crê que, não fosse a punição, tinha carro para brigar com as Ganassi no fim?

Sem dúvida, Se você olhar meus tempos no final da corrida, mesmo em 14º eu estava rodando mais rápido que os caras da frente.

Você disse que não pode baixar a cabeça apesar da frustração da perda do título. Agora, a Indy vai viver um longo período sem corridas. Como vão ser os próximos dias? De férias ou discussão/análise da temporada? Como você vai levar esses mais de seis meses sem corridas? A preparação é diferente?

Tem gente que está achando que a gente vai ficar todo esse tempo de férias. Vou falar uma coisa para você, se eu conseguir parar 15 dias nesse tempo todo, estarei no lucro. É que há um bom conjunto de atividades pela frente. Primeiro, temos testes programados ainda esse ano e todo um trabalho de planejamento para a próxima temporada. Os compromissos promocionais com os patrocinadores e a categoria são grandes e não param. Tenho compromissos fora dos Estados Unidos, inclusive no Brasil, e há também algumas oportunidades de participar de competições como convidado, mas isso aí só vai dar para participar se conseguir conciliar a agenda. E sempre mantendo a preparação física em dia, como se estivesse em temporada de provas. Eu procuro manter uma rotina de preparação física durante o ano todo há anos e tem dado certo.

A Penske foi a melhor equipe durante quase toda a temporada. A preparação para este ano foi diferente? Alguma coisa feita a um longo prazo? O que mudou?

Não, tudo igual. E esse ‘tudo igual’ na Penske significa muito trabalho dentro e fora das pistas, planejamento e comprometimento total do todo mundo. O que foi diferente dessa vez, em relação aos anos anteriores, foi que as peças se encaixaram melhor. Voltar a ver a equipe campeã é uma satisfação muito grande. Obviamente que eu queria ter sido o campeão, mas esse espírito de equipe é muito forte e fiquei realmente feliz em participar disso.

Você avalia que vimos o melhor Castroneves neste campeonato? Você crê que esse foi seu melhor desempenho na carreira?

Cara, eu procuro fazer o meu melhor sempre. Não sei se entendi bem a sua pergunta, mas eu quero pensar que posso melhorar sempre. Talvez se eu conseguir, no ano que vem, faturar minha quarta Indianapolis e o título, acho que aí sim eu poderei dizer que foi o melhor momento. Na minha cabeça, sempre tenho de melhorar, pois todo mundo evolui e você não pode ficar para trás.

Qual você acha que foi o grande diferencial de Power em relação a você neste campeonato?

É difícil dizer, pois nós dois andamos muito próximos durante o ano. Cada um teve seus altos e baixos, mas na média ficamos por ali, tanto que o título estava aberto até faltarem 30 voltas da última corrida do ano. Então, é mais fácil responder olhando os números e, sem dúvida, o fato de ele ter vencido três corrida e eu uma, foi um fator importante.

Pensando já no próximo ano, o crescimento da Ganassi na parte final do campeonato sugere uma disputa ainda mais acirrada em 2015?

Eu acho que vai continuar como tem sido, ou seja, todo mundo embolado e vários pilotos e equipes lutando pelo título. Indy é assim, super competitiva, e não há motivos para mexer em time que está ganhando.
 

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